19.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XXXII


Pouco depois os pais de Anete deram por terminada a conversa com as jovens. Era visível nos seus rostos a emoção que lhes trouxeram as recordações que acabaram de viver. A mãe de Anete, tinha encontrado entre as fotografias guardadas, uma foto de Antónia grávida, pouco antes do nascimento das gémeas, e outra com ela  e Antónia, quando regressavam do registo, cada uma com uma das meninas ao colo.  Mandara fazer duas cópias e oferecera-lhes para que tivessem uma recordação da sua mãe biológica. Depois a conversa generalizou-se até que um pouco mais tarde, Raul disse que era melhor regressarem, o trajeto até Lisboa ainda levava mais de duas horas, e em Novembro, faz-se noite cedo. Foi o sinal, para que entre agradecimentos e abraços, todos se despedissem, e decidissem regressar.  
Desejoso de conversar com Anete, Salvador ofereceu-lhe boleia, mas a jovem disse que ia no seu carro, gorando-lhe as intenções.
Ela foi a última a partir, depois de um último adeus aos pais e ao irmão mais velho, que morando em Coimbra, ficava com a família para o jantar.
Um pouco mais à frente, viu o carro de Salvador parado na berma, mas seguiu em frente. Pelo espelho retrovisor, viu que ele arrancava logo de seguida e apesar do seu carro ser mais potente, se mantinha atrás dela.
Percebeu que ele iria seguir assim até Lisboa, talvez até sua casa, e ficou nervosa. Uma coisa era estar com ele, entre família, onde até se podia permitir brincar, outra coisa era estarem sozinhos.
Ela pressente o perigo, no formigueiro que sente quando acidentalmente as suas peles se tocam, no frio na barriga, quando ele a olha, com aquele olhar profundo que parece procurar-lhe a alma. Tem a certeza que se está a apaixonar por ele, e tem a certeza que isso é a pior coisa que lhe pode acontecer. Está convencida que Salvador, nunca vai querer nada sério com ela. Afinal quem é ela? Uma mulher com quase trinta anos, que já devia ter encontrado o rumo da sua vida, ter um curso, que lhe permitisse uma boa profissão,  casa, marido e filhos, e que não tem nada. Nem sequer uma experiência sexual.
Como é que um homem que se interessasse por ela, ia reagir, à sua timidez, à sua falta de experiência, sabendo que fora casada durante mais de três anos? No mínimo ia pensar que era frígida. E nenhum homem se interessa por uma mulher assim. Claro, ela podia dizer que era virgem. Mas será que alguém acreditaria nisso? Nem mesmo ela acredita, que algum dia seja capaz de falar sobre isso com algum homem. Pois se ainda não teve coragem para o contar à irmã.
Decide parar na estação de serviço de Aveiras, para esticar as pernas e beber um café. Salvador estaciona ao lado, e apressa-se a segui-la.
- Queres alguma coisa? – Perguntou bruscamente quando ele chegou a seu lado.
- Calma. Só quero conversar contigo. Estive fora toda a semana e na casa dos teus pais não deu. Aceitas jantar comigo?
- Sinceramente não me apetece sair. Estou cansada. Prefiro ficar em casa.
- Tudo bem, eu não me importo de jantar na tua casa, - disse com um sorriso. – Podemos encomendar o jantar. Conheço um bom restaurante que faz entregas ao domicílio.
- Não. – Ela quase gritou, o que atraiu a curiosidade da mesa ao lado.
- Porquê? Tens medo de quê? Não foste tu que me disseste que tinhas aprendido a defender-te com os teus irmãos?
- Tu não és meu irmão!- Respondeu agreste
- Graças a Deus. Não deve ser agradável ter uma irmã tão mal-humorada.
Olhou-o. Os olhos cor-de-mel, sustentaram-lhe o olhar, firmes, trocistas, e...
carinhosos?
- Está bem, - cedeu por fim. – Mas levas o jantar.
Voltou-lhe as costas e dirigiu-se ao carro, clamando consigo própria, por não ter sido capaz de resistir.

18.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XXXI


O almoço, decorreu animado, como se todos se conhecessem há muito tempo e pertencessem à mesma família. A Salvador agradaram-lhe os pais de Anete, desse que os conhecera na semana anterior. E apesar de não se sentir muito confortável com a atitude vigilante dos irmãos dela, não os condenava. A jovem era muito bonita, e provavelmente, ele faria o mesmo se estivesse no lugar deles.
Ele não estava apaixonado por Anete. Ou pelo menos pensava que não estava, embora sentisse um certo carinho por ela. Na verdade apenas uma vez na vida esteve apaixonado, e isso já fora há tanto tempo, que às vezes pensava se realmente amara mesmo Ana Clara, ou se não passou de uma ilusão que ele empolgou transformando num amor platónico e impossível. Perguntava-se muitas vezes, se Raul não se tivesse intrometido, ele teria mesmo chegado ao casamento.
 Anete constituía um desafio para ele. Sabia que era divorciada, mas isso não parecia afetá-la de alguma maneira. Mas seria assim na realidade, ou essa era uma máscara que ela usava para não denunciar os seus sentimentos? Tinha vinte e oito anos, e não tinha filhos. No entanto a maneira carinhosa que usava no trato com os sobrinhos, revelavam um carácter tão maternal, que parecia impossível não ter sido mãe, durante o casamento.  Pensou vagamente que se chegasse a sentir por uma mulher um amor tão grande, que o levasse ao casamento, gostaria de ser pai. Às vezes enquanto brincava com os sobrinhos, pensava como seria se fossem seus filhos. Engraçado pensar assim e nunca lhe ocorrer associar Ana Clara às crianças.
Desejava conhecer melhor Anete. Gostaria que fossem amigos, que saíssem. Sem compromisso. 
- Ei, alguém viu se o Salvador saiu? - A voz de Luís soou trocista.
- Hem.. . Dizias alguma coisa?
- Homem há meia hora, que te estou a pedir se me passas o pão.
- Desculpa, estava distraído. Toma.
- E essa distração tem nome? – Interrogou Ricardo
- Deixem o Salvador em paz, - irritou-se Anete.
- A vossa irmã tem razão, - interveio o pai.- Não foi essa a educação que vos demos. Salvador é nosso convidado, merece respeito.
Terminado o almoço, e depois da loiça se encontrar já na máquina, os donos da casa, reuniram-se com as duas irmãs, para conversarem, e verem as fotos prometidas. As crianças voltaram para a brincadeira no quintal seguidas por Raul. Teresa andava às voltas na cozinha, e Salvador, ficou na sala com Luís.
Durante um longo momento, permaneceram em silêncio, como que estudando-se. Por fim Luís disse:
- A mãe disse que foste tu que deslindaste esta história. Que fazes na vida?
- Sou advogado. Tenho um escritório em Lisboa. E tu?
- Antropólogo. Trabalho na biblioteca nacional. Como é que descobriste a Anete? Procurou-te?
- Não. Tu foste o culpado. Vi-a na rua, e pensei que era a minha cunhada. Se estivesse sozinha não teria tomado atenção. Mas estava contigo, numa atitude carinhosa, e deves saber o que pensei.
- Cálculo, mas eu não te vi. Procuraste-a depois? Foste a casa dela?
- Sossega, nunca fui a casa da tua irmã que me merece o maior respeito. Confia em mim, não lhe farei mal. Amigos?
-Amigos, - disse Luís apertando a mão que Salvador lhe estendia.



17.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XXX


Os três homens puseram-se de pé, quando eles entraram, na sala, e por momentos ficaram em silêncio, a olhar para os recém-chegados. Melhor dizendo a olhar Ana Clara. Por muito que tivessem ouvido falar na semelhança entre as duas, ainda assim a surpresa foi grande. Anete encarregou-se de os apresentar, e depois o dono da casa aproximou-se de Ana Clara.
-Sê bem-vinda, filha. Quero que saibas, que estamos muito felizes por te conhecermos, e que esta casa estará sempre aberta para vos receber, - disse estendendo-lhe os braços, onde a jovem se refugiou emocionada.
 Talvez para quebrar um pouco a emoção, Luís disse:
-Tenho que ir à pastelaria onde tomei o pequeno-almoço. Não sei o que me puseram no café que estou a ver dobrado.   
Todos riram e as apresentações prosseguiram em clima mais leve, até que chegou a vez da dona da casa, que entretanto viera da cozinha para cumprimentar as visitas.
- Estás muito bonita. Se existe um outro mundo, onde se pode ver o que se passa por cá, Antónia deve estar tão feliz como eu, por vos ver juntas.
- Anete, disse-me que a senhora conheceu a minha mãe biológica.
- E verdade. Viveu connosco algum tempo. Tinhas três meses quando se foram embora. Andei remexendo as fotografias antigas, e encontrei duas da Antónia. Depois do almoço, mostro-vos.
Entretanto Teresa, fora ao quintal buscar os filhos, para lhes apresentar as crianças recém-chegadas. Com a naturalidade própria da infância, os dois meninos logo quiseram mostrar aos outros o quintal, e os quatro foram brincar, alheios à emoção dos adultos.
Depois as quatro mulheres voltaram para a cozinha, deixando os homens em animada conversa na sala.
Um quarto de hora mais tarde, a campainha tocou e Anete apressou-se a ir abrir. Na sua frente, com um bonito ramo de rosas, Salvador saudou-a sorrindo.
- Desculpa se me atrasei, mas foi premeditado. Queria que a família vivesse a emoção deste encontro sem a presença de estranhos – disse saudando-a com um breve beijo nas faces, saudação social tão em voga nos dias de hoje.
- Tu não és um estranho. És o cunhado da minha irmã.
- Sei, e tu és a cunhada do meu irmão. Não me esqueci, - disse sorrindo.
- Entra, daqui a pouco a família vem ver quem está à porta.
-Obrigado, - disse e estendeu-lhe o bonito ramo.
- São para mim? – Perguntou espantada
- Não, são para a tua mãe. É a dona da casa, e foi dela a ideia de me convidar, segundo me disseram.
Anete levou-o até à sala, para o apresentar aos irmãos. Não pôde deixar de reparar no olhar inquisitivo com que o brindaram, depois de olharem para o ramo de flores. Deu por si a pensar.
“ Não têm emenda. Pobre Salvador, não sabe que acaba de mexer num vespeiro” 
Sorriu dizendo.
- Vou entregar as flores à sua legítima dona. Tenho a certeza que vai querer agradecer-te. E não deixes que os meus irmãos te incomodem.
Saiu, em direção da cozinha, e pouco depois, a dona da casa, vinha saudá-lo.


16.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XXIX


A casa dos pais de Anete, ficava situada numa zona já na periferia da cidade. A rua era composta quase só por vivendas, separadas entre si por muros encimados por gradeamento. Quase todas tinham na parte da frente, um minúsculo jardim, com algumas flores. Em muitas delas havia pés de roseira, que na altura da floração perfumavam o ar. Raul estacionou o carro, entre o de Ricardo e o de Afonso, que viera passar o dia com a mãe, e que naquele preciso momento voltava a casa, depois de ter ido comprar o jornal. Sabia que havia festa em casa do vizinho, tinha visto Anete com os pais à saída da igreja, e via os carros dos dois irmãos frente à porta. Parou no passeio, espantado ao ver Anete sair dum carro que desconhecia, abrir a porta de trás e desapertar o cinto da cadeirinha de uma criança enquanto o homem do outro lado, fazia o mesmo. Ele tinha visto a jovem entrar em casa com os pais. E agora estava ali? Quem era aquele homem e aquelas crianças? Alguém que tinha conhecido em Lisboa? Estava diferente de quando a vira de manhã, com outro vestido e outro penteado. Engoliu em seco, quando ouviu uma das crianças chamar-lhe mãe. Queria falar, mas não conseguiu articular palavra. Nesse momento, Anete viu através da janela o que se passava. Rapidamente tirou o avental e saiu a receber a irmã, deixando Afonso completamente petrificado. Então a jovem  aproximou-se dele e apresentou-lhos.
- Afonso, apresento-te a minha irmã gémea Ana Clara, o meu cunhado Raul, e meus sobrinhos, Jorge e Miguel. Família, este é Afonso, um grande amigo.
Não o apresentou como ex-marido, não lhe apetecia falar do seu casamento falhado, naquele dia.
Afonso, compreendeu-a e também não referiu o facto. Limitou-se a cumprimentar os recém-chegados, dizendo a Anete.
-Nunca soube que tinhas uma irmã.
- Eu também só o soube há dias. É que fomos adotadas por famílias diferentes. E não fiques em choque. É um segredo de família, tão bem guardado que nem eu sabia. Um dia conto-te tudo. Por favor, não o contes à tua mãe.
- Não contarei. Fica descansada.
- Obrigada – agradeceu a jovem, dando-lhe um beijo breve no rosto, antes de lhe voltar as costas, e dar o braço à irmã para entrarem em casa.
- Prepara-te. Pela reação de Afonso, imagina o que te espera lá dentro, - disse Anete
- Já chegaram todos? Não vejo o carro do meu irmão, - disse Raul.
- Se ele vem, ainda não chegou, - respondeu Anete.
- Como se ele vem? Eu disse ao teu pai que ele vinha. Esteve toda a semana na Madeira, mas regressou ontem.
- Não sabia.O meu pai não me disse nada, provavelmente porque eu também não perguntei.
Entraram em casa, e Anete empurrou a irmã na direção da sala.
- Entra tu primeiro. Quero ver a reação dos meus irmãos.


15.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XXVIII


Naquele domingo de outono, o sol brilhava, num céu imaculadamente azul, com a temperatura a rondar os vinte e quatro graus, o que levava a crer que o S. Martinho estava a prolongar o “seu” verão para além da data, Anete e seus pais levantaram-se cedo, a fim de assistir à missa das oito. Os pais não perdiam a missa dominical, e ela gostava de os acompanhar.
Depois da homilia, quando se preparavam para regressar, Anete viu-se constrangida a cumprimentar a ex-sogra, que se encontrava na companhia do filho. Arrependeu-se de ter ido com os pais. Devia ter pensado que aquilo podia acontecer. Ela não tinha nenhum problema em cumprimentar o ex-marido. Os dois foram e eram amigos, e na verdade nunca se sentiram de outro modo. Mas Laura, a mãe, culpava-a pelo divórcio, e não lhe perdoava. De modo que foram uns momentos de grande constrangimento.
No regresso, foram para a cozinha, mas enquanto mãe e filha ficavam a tratar do almoço, o pai saiu pela porta que dava para as traseiras da casa, onde havia um quintal. Junto à casa, um largo canteiro, onde se viam plantados vários pés de couve tronchuda, que haveriam de acompanhar as batatas e o bacalhau na consoada. À volta alguns pés de alface. Num outro canteiro do lado direito, várias ervas aromáticas, que a mulher costumava usar na cozinha. Salsa, coentros, manjericão, cebolinho, hortelã, e outras, impregnavam o ar de uma mistura de aromas. Havia ainda um canteiro maior, com couves já adultas, cenouras e nabos. Algumas iriam ser arrancadas daí a pouco, para o cozido à portuguesa que a mulher e a filha estavam a confecionar para o almoço. 
Tinha disposto a parte cultivada do quintal, junto à residência, por forma a ficar mais perto, da torneira na hora de regar. Mais ao fundo, junto ao muro, e aproveitando a sombra de duas macieiras e uma nespereira, ele tinha construído uma casa de brincar, para os netos; e montado um baloiço numa armação metálica. Eles gostavam de brincar ali, quando iam passar o dia lá em casa, e naquele dia com dois novos amiguinhos, não ia ser diferente, pelo que ele se dedicou a verificar se tudo estava em ordem, de forma a evitar qualquer acidente.
Satisfeito com a inspeção, regressava a casa, quando a  porta se abriu e a mulher lhe pediu que escolhesse 3 couves das maiores e uns quantos nabos e cenouras.  Arrancou-as,  lavou-lhes a terra debaixo da torneira e só então as levou para a cozinha, 
Depois, enquanto as duas mulheres continuavam os preparativos para o almoço, ele foi para a sala e ligou a televisão.
Meia hora depois, chegou o filho mais novo. Luís abraçou e beijou a mãe e de seguida abraçou fortemente a irmã. Logo a afastou para a mirar, olho no olho, procurando descobrir se ela estava bem. Anete sorriu, levantou a mão e passou-a pelo rosto recém-barbeado do irmão.
- Não te preocupes, estou ótima.
O irmão relaxou. Deu-lhe um beijo na testa e seguiu para a sala, onde se juntou ao progenitor. Logo depois, chegou Ricardo e a família. O irmão voltou a assegurar que nada mudara entre eles, e a interrogar como ela se sentia. As crianças foram brincar para o quintal, enquanto os homens se entretinham na sala com uma acalorada discussão sobre futebol.
                                                                    



14.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XXVII


Nunca uma semana decorreu tão veloz para Anete como aquela.
Entusiasmada com a nova vida, o emprego, e a amizade com a colega, Diana, a irmã, com quem falava todas as noites pelo telefone, a perspetiva do almoço em Coimbra que a mãe estava a organizar para juntar as duas famílias, tudo contribuiu para que o relógio lhe parecesse que passava as horas, mais depressa do que o habitual.
Não tinha sabido nada de Salvador. Ele não telefonara em toda a semana, e embora no seu íntimo considerasse que era o melhor, a verdade é que esperara que o fizesse e se sentia desiludida.
Nas longas conversas com a irmã, nunca o seu nome fora nomeado, e ela não se atrevia a fazer perguntas. Tinha a sensação que ele não frequentava muito a casa do irmão. No entanto, nas duas noites em que lá jantaram, ela reparou que os dois irmãos se davam muito bem, o que provava que apesar da diferente vida que levavam, os dois se amavam.
Sabia que ele fora convidado para o almoço. Os pais consideravam-no como membro da família, e estavam-lhe gratos pelo papel que desempenhara naquela história. Não sabia se ele tinha aceitado, mas tinha a certeza de que a mãe lhe diria quando chegasse a casa no dia seguinte. Sim porque a semana de trabalho acabara, no dia seguinte era sábado, e ela já tinha o bilhete para o comboio da manhã. O almoço era no domingo, é certo, mas ela não deixaria a mãe sozinha com os preparativos, tanto mais que Teresa, a mulher do irmão, trabalhava toda a semana, e no fim-de-semana não lhe faltava trabalho para gerir a casa, tratar dos dois filhos, e organizar as coisas para a semana seguinte. Depois no domingo aproveitaria para trazer o carro para a cidade. Fazia-lhe falta para conhecer os arredores de Lisboa, porque a verdade é que nos seus passeios anteriores, nunca foi além de Santarém. E também para as viagens a Coimbra.
 Deu o duche por terminado e depois de secar o corpo, enviou um pijama de algodão cinzento, como minúsculas flores cor-de-rosa, envolveu os cabelos molhados numa toalha que enrolou na cabeça, à laia de turbante, vestiu um robe azul sobre o pijama e foi para a cozinha.
Tirou do congelador uma pizza que meteu no micro-ondas, e marcou os minutos precisos. Logo que ouviu o sinal do aparelho, colocou o prato em cima da mesa, encheu um copo com água e jantou.
Terminada a refeição, arrumou a cozinha e dirigiu-se à sala, onde se sentou num cadeirão em frente do sofá. Pegou no comando da televisão, mas voltou a pousá-lo. Na verdade, não lhe apetecia ver nada. Levantou-se e pegou no livro que tinha comprado no dia anterior. “Um refúgio para a vida” de Nicholas Sparks. Nunca tinha lido nada daquele autor, embora já tivesse visto vários livros expostos na livraria do supermercado onde fazia as suas compras. Porém em conversa com a sua colega de trabalho, sobre livros, ela contara-lhe que era uma grande fã do autor, que eram romances tão bons, que vários  dos seus livros, tinham sido adaptados ao cinema e que ela não perdia um.
Ficou tão curiosa, que nessa mesma noite, quando passou pelo supermercado, resolveu juntar um dos livros dele às restantes compras. Escolheu apenas pelo título, porque “Um refúgio para a vida” era tudo o que ela gostaria de ter.
Pela leitura na parte interior da capa, tomou conhecimento das obras que tinham sido adaptadas ao cinema, confirmando a informação que Diana lhe dera. Embrenhou-se na leitura, e deixou-se absorver de tal maneira, que quando olhou para o relógio era quase meia-noite.



13.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XXVI


Anete não conseguia concentrar-se no programa televisivo, pelo que desligou o aparelho. Recostou a cabeça no sofá, fechou os olhos, e ficou a pensar em tudo o que lhe tinha acontecido ultimamente, e na volta que a sua vida dera. E pensar que se tivesse continuado a viver em Coimbra, provavelmente nunca em toda a vida ia descobrir a verdade, nem conhecer a irmã. Nem teria conhecido… Salvador.
Pensar nele acelerou o seu coração. Jamais conhecera um homem como ele. Bom a verdade é que ela não tivera hipótese de lidar com outro homem que não fossem os  seus irmãos, ou o Afonso, que para o caso era praticamente o mesmo.  Essa foi uma das razões que a trouxera para Lisboa. Fugir da influência dos irmãos. Na cidade, podia dar-se o caso de conhecer um homem interessante, por quem se apaixonasse e que lhe correspondesse. E nem que andasse procurando com um radar, podia ter encontrado homem mais interessante que Salvador. Porém ele não contava. Interessante, bonito, rico, seguro de si, e com uma carreira de sucesso, era areia demais para a sua camioneta. Nunca se ia interessar por ela. Quando muito se ela o deixasse, era mais um para lhe infernizar a vida, com os seus conselhos e proteção. Não fora assim que ele procedera até agora? Claro que sim. Mesmo o beijo que lhe dera na véspera, e que lhe acelerara o sangue nas veias, não continha paixão nem desejo. Fora mais um beijo de amigo. Só que o seu coração, não conseguia vê-lo como amigo. Então, só podia tomar uma decisão. Restringir ao máximo, os encontros com ele, já que evitá-los na totalidade seria impossível, dado o grau de parentesco com a sua irmã. O telemóvel começou a tocar. Era Ricardo.
 - Estou
- Mana como estás? Os pais acabaram de nos contar. Estamos preocupados contigo.
- Eu estou bem, não se preocupem.
- Não é preciso dizer que não mudou nada, entre nós, pois não?. Continuas a ser a nossa irmãzinha querida.
- Eu sei, Ricardo. Para mim também não mudou nada. Ou sim mudou. Agora tenho mais uma irmã e uma nova família, o que quer dizer que nesta história toda, sou a grande beneficiada. Amo-vos muito. A todos. E como está a minha cunhada e os meus sobrinhos?
-Estamos bem. Mas o importante agora és tu. Juras que estás bem? Não nos estás a enganar?
-Juro. Não se preocupem.
- Olha o Luís está aqui, a querer tirar-me o telefone das mãos. Vou passar-lhe a chamada. Cuida-te Princesa.
- Anete, querida, estamos tão preocupados contigo. Deves estar arrasada. Penso que é melhor tirar uns dias de férias para te dar apoio.
- Não – quase gritou endireitando-se no sofá. Eu estou bem, comecei hoje a trabalhar, sinto-me ótima.
-Olha querida, os pais estão a pensar, darem um almoço no domingo, para juntarem as duas famílias. Dizem que tu lhes perdoaste, mas precisam pedir perdão à Ana Clara. Penso que a mãe te vai ligar amanhã. Cuida-te, Princesa. E se precisares não hesites em me telefonar. 
-A sério?  A única coisa que preciso agora é de ir para a cama. Amanhã tenho que me levantar cedo. Amo-vos.
-Amamos-te mais, maninha.