28.6.17

EM NOITE DE ANIVERSÁRIO



Há precisamente 37 anos na noite de S. Pedro, vieste ao mundo. Parabéns filho. 

Fiz um passeio por algumas etapas da tua vida através das fotos




                                       

SONHO AO LUAR - PARTE XVII



Isabel, tivera um dia complicado no escritório. O telefonema de Hélder, no fim da manhã, contribuíra para uma desconcentração na parte da tarde, que a obrigara a um esforço extra para fazer alguma coisa de útil. Felizmente que no dia seguinte era sábado, podia descansar um pouco. Cansada, tomou um relaxante banho, espalhou sobre o corpo um creme hidratante, enfiou uma curta camisa de dormir, o robe de seda, e sem ânimo para fazer jantar, pensou em fazer um chá e duas tostas. Acabara de pôr a chaleira ao lume com a água para o chá, quando a campainha tocou. Espreitou pelo ralo, e ficou sem cor ao reconhecer o escritor. Olhou para si mesma, para a roupa inapropriada para receber visitas, que vestia, mas acalmou-se ao pensar que ele não podia vê-la. Mas seria mesmo ele? Devia estar enganada. Ele não sabia onde ela morava. Nem se devia lembrar já da sua existência. Nesse momento a campainha voltou a tocar de forma impaciente. Voltou a espreitar. Não havia dúvida. Era ele. Abriu a porta, quando ele se aprestava para tocar pela terceira vez.
- O que estás aqui a fazer? Como soubeste onde morava?
- Se me convidares a entrar, posso responder a isso e a muito mais.
- Mas estás sozinho? E o Rex?
Ele sorriu. Sem se dar conta, perguntando pelo cão guia, ela tinha-se denunciado.
- Já não preciso dele, - disse tirando os óculos e deixando-a mirar-se nos belos olhos escuros. Mas vamos ficar a conversar aqui ao pé da porta? Não me mandas entrar?
- Sim, claro, desculpa. Vem para a sala. Senta-te. Vou só apagar o lume, ia fazer um chá.
Regressou logo a seguir. Ele estava de pé, com uma foto dos dois na mão. Tinha sido tirada pouco antes de se separarem dez anos antes, e a lembrança do que tinha acontecido na época tingiu de carmim, as faces da jovem.
- Senta-te. Suponho que convenceste a minha avó a dar-te a minha morada, -disse sentando-se no sofá em frente dele. Só não entendo para quê? Dez anos é muito tempo, para ainda te lembrares de mim.
- Dez anos Isabel? Pensas mesmo que não te reconheci? Que não sei que eras tu que estiveste a meu lado estes dois meses?
Ela perdeu a cor. Balbuciou.
- Como o soubeste? E desde quando?
- Senti-o no primeiro momento na praia, quando me saudaste. Não quis acreditar, pensei que estava a ficar maluco, e por isso não te respondi. Depois, procuraste-me para te ofereceres como secretária, e fiquei meio convencido que realmente eras tu, mas a certeza, só a tive quando leste para mim. Lembrava-me bem quantas vezes, tínhamos lido um para o outro há dez anos. Quando falaste do teu amigo, senti vontade de te abraçar e te dizer que não podias esconder-te. Estavas dentro de mim, achar-te-ia sempre, mas depois pensei que devias ter uma razão para te esconderes, quem sabe tinhas um namorado, sei lá. Dez anos, é muito tempo, não sabia nada de ti, podias até ter casado. Esperei que fosses tu a falar. Além disso que podia eu oferecer-te, na situação em que me encontrava?  Mas logo depois, começou a acontecer algo, com que eu já não sonhava. Começava a distinguir formas e movimentos. Então fiz a mala e parti para Barcelona, pois tinha sido lá que tinha tentado todos os tratamentos para recuperar a visão.

SONHO AO LUAR - PARTE XVI







- Deves estar muito contente.
- Por voltar a ver, sim. Mas vinha doido para ver a sua neta. Que se passa com ela?
- Não sei, Helder. Diz-me tu, porque a queres ver? Desde quando sabias que era ela?
- Quase desde o primeiro dia. A dona Lucinda conhece-me desde sempre. Sabe da amizade que me unia à sua neta. Também sabe como fiquei meio perdido quando os meus pais morreram. Sei que pode parecer estranho que tenha sido uma miúda, a fazer com que me reencontrasse, eu que era já na altura um homem. Mas foi o que aconteceu. Ela era encantadora, tão simples, tão natural, e eu sentia-me feliz a orientá-la nas leituras, a mostrar-lhe o mundo como eu o via. Era como se tivesse uma irmã mais nova, para amar e proteger. E esse sentimento levou-me a recuperar da dor e desorientação em que a morte dos meus pais, daquela forma trágica, me tinha deixado. Por muito estranho que pareça, dada a nossa diferença de idades,  durante quatro anos, fomos os melhores amigos do mundo. Depois um dia descobri que se tinha apaixonado por mim. Fiquei zangado. Foi como se a vida me tivesse roubado de novo, como se a minha irmãzinha tivesse morrido. E de certa forma assim foi, já que desde esse dia, nunca mais fui capaz de a ver, ou de pensar nela, da mesma maneira. Senti-me atraiçoado.  Fui para Lisboa, empreguei-me numa loja, e aluguei um pequeno apartamento com outro colega. Comecei a escrever. Sempre gostei muito de o fazer, mas nunca pensei que a minha vida seguisse esse rumo. Mas o livro foi um sucesso estrondoso, e de repente, o livro era traduzido em várias línguas, as edições sucediam-se, até se projetava um filme baseado nele, e então deixei o emprego e dediquei-me apenas à escrita. A recordação de Isabel nunca me abandonou. Era algo muito íntimo. Fazia parte de mim. Depois sofri o acidente deixei de ver, e durante muito tempo estive apenas centrado na tentativa de recuperar a visão. Quando perdi a esperança, voltei para casa. E de novo Isabel, veio e me salvou. Porque foi desde que tive a certeza que ela estava comigo, que a minha visão começou a dar sinais de querer voltar.  Durante estes meses, eu descobri porque é que nunca me interessei a sério, por nenhuma mulher nestes dez anos. O amor pela sua neta enchia o meu coração. Neste último mês, vivi entre o Céu e o Inferno, com o desejo de lhe confessar o meu amor, e o medo de não poder oferecer-lhe nem sequer um olhar apaixonado. Agora ela não quer falar comigo, e eu desespero.
Calou-se. A senhora estava emocionada.
- Sabes de uma coisa, Hélder? Vocês hoje em dia são demasiado complicados para o meu gosto. A Isabel foi-se embora desesperada, convencida de que nunca corresponderias ao seu amor.
- Convencê-la-ei do contrário. Só não sei onde encontrá-la.
- Eu sei. E vou ajudar-te. Mas tens que me prometer trazê-la de volta. Estou velha, não gostava de morrer, sem a ver feliz.
Inclinou-se para a mesa, apanhou um bloco e escreveu uma morada. Depois arrancou a folha, e deu-lha. Ele abraçou a idosa e deu-lhe dois carinhosos beijos.
- Fico-lhe eternamente grato. Parto depois de almoço.


27.6.17

SONHO AO LUAR -PARTE XV




Hélder entrou em casa. Tirou o casaco que pendurou no bengaleiro, e olhou para todos os lados, analisando cores e móveis. Respirou fundo. A sua casa. Era a primeira vez que a via, desde que partira há dez anos. E estava bem diferente após a remodelação que sofrera há meses. Antônia à porta, olhava-o espantada. Como é que ele tinha vindo sozinho? E onde estava o cão?
- Que se passa Antónia. Parece que viu assombração.
-Louvado Seja Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, -disse a mulher, juntando as mãos e erguendo os olhos. - O senhor está a enxergar!
-Estou. Mas com a fome que tenho, daqui a pouco não vejo nada de novo, - disse sorrindo.
-Não seja por isso, senhor. Vou já fazer o almoço, -disse saindo apressada para a cozinha.
Instintivamente dirigiu-se ao quarto e pousou a mala em cima de uma cadeira. Era estranho. Ele não sabia, onde ficavam os aposentos, mas bastava-lhe contar mentalmente os passos e sabia exatamente onde ficava cada um. Pegou no telemóvel, e ligou um número.
- Isabel?
- Sim.
- Estou em casa. Podes vir aqui agora?
-Não. Desculpa, foi muito gratificante trabalhar contigo e ler em primeira mão o teu novo livro, mas inclusivamente já não vivo aí. Deixei-te a carta de rescisão do contrato em cima da secretária.
- Rescisão? Não podes fazê-lo. Não sem antes falar contigo.
Não obteve resposta. Ela tinha desligado. Ligou de novo, mas ela desligara o telemóvel. Ficou furioso. Saiu disparado em direção à casa mais próxima e bateu à porta.
- Onde está a sua neta? – Perguntou mal a idosa abriu a porta.
Ela olhou-o espantada. Afastou-se um pouco para o deixar entrar e disse sorrindo:
- Que surpresa! Entra filho, conversamos na sala, que preciso de me sentar. Já não tenho idade, para um choque destes.
Deu-se conta, de que tinha sido demasiado brusco com a velha senhora, que realmente devia estar surpreendida, e curvando-se depositou um suave beijo na testa enrugada.
- Perdoe-me. Acabei de chegar, e a sua neta acaba de me dizer que se despediu. Fiquei destroçado, e não me portei bem com a senhora.
Já na sala, a senhora perguntou:
- Mas diz-me filho, que milagre é esse? Foste operado?
- Não. Há anos tive um acidente grave, quando caí de um cavalo e bati com a cabeça numa pedra. Tive uma hemorragia, fui operado de urgência, estive uns dias em coma. Quando recuperei, estava cego. Fiz muitos exames, os médicos diziam que eu não tinha nada físico que me impedisse de ver, mas o certo é que não via. Segundo eles só podia ser por qualquer trauma psicológico. Há um mês comecei a notar que distinguia umas sombras. Nada de muito relevante, mas assim que terminei o livro,  parti para ir consultar os médicos que me tinham tratado, e fazer novos exames. Eles confirmaram que estava a recuperar a visão. Fiquei muito admirado, pois pensava que sendo psicológico, quando recuperasse a visão, ficaria a ver normalmente e o que eu distinguia era um jogo de luzes e sombras. Distinguia vultos apenas. Os médicos disseram que era normal, os olhos são órgãos muito preguiçosos, e tinham estado quase quatro anos sem ver, pelo que a visão viria aos poucos, e tinha que fazer várias vezes ao dia, certos movimentos oculares, para os exercitar. Estive quinze dias numa clínica em Barcelona. Mas graças a Deus resultou.



SONHO AO LUAR - PARTE XIV


Na manhã seguinte, quando Isabel chegou para o seu dia de trabalho, foi recebida por Antónia, que a informou da viagem do patrão. Disse-lhe que o patrão, antes de partir lhe dissera, para lhe comunicar que tinha deixado uma mensagem gravada para ela. Agradeceu o recado e dirigiu-se ao escritório para ouvir a mensagem. Ligou o gravador, e a voz grave fez-se ouvir.
- Bom dia, Isabel. Deves estar surpresa com a minha súbita partida, mas aconteceu algo que não posso adiar. Não sei quanto tempo vou estar ausente, espero que não seja muito. Até lá, estás de férias.
Que podia ter acontecido para que tivesse de partir tão repentinamente?Algum problema com a editora e a publicação do livro? Mas se era isso, porque não o dizia? De qualquer modo que importava isso agora? Não tinha decidido ir-se embora? Pois ali estava uma boa oportunidade. Quando ele voltasse, já estaria longe. Tinha pena de se afastar da avó, tinha quase oitenta anos, gostava de ter ficado junto dela o resto da vida. Mas o melhor que fazia era voltar para o escritório na cidade. O seu lugar não podia ser ali, ao lado do homem que amava e simultaneamente tão longe dele.
Pensou deixar-lhe uma mensagem gravada. Mas desistiu. Que podia dizer-lhe? Que os dois eram vítimas de uma brincadeira do destino? Não. Levantou-se, desligou e guardou o gravador, e chamou Antônia, a quem disse que a ordem deixada era para ir de férias até à volta do patrão. Despediu-se pois e voltou para casa. Foi para o seu quarto, pôs a mala em cima da cama, guardou as suas roupas, e quando fechou a mala, viu a avó parada na porta do quarto
A avó abriu os braços e ela correu para eles. Choraram juntas. Depois, mais calma a avó disse:
-Tenho medo de não voltar a ver-te, filha.
- Não digas isso, avó. Tinha, decido viver aqui contigo. Agora, não me sinto com coragem para isso. Mas prometo que venho ver-te muitas vezes. Um fim de semana, um feriado. O tempo suficiente para estar contigo, e não ter encontros dolorosos. O melhor mesmo era ires viver comigo, mas já sei que ninguém te arranca daqui.
- Vais-te embora já?
- Não. Só depois do almoço.
- Então vem. Vamos tratar dele agora.

26.6.17

SONHO AO LUAR - PARTE XIII


A avó viu-a entrar. Leu-lhe o desespero no olhar. Uma sombra de tristeza, perpassou-lhe pelos olhos cansados. Conhecia aquele filme. Tinha-o visto dez anos antes. E dessa vez ficou cinco anos sem ver a neta. Se a história se repetia, tinha a certeza de que nunca mais a veria. Esperou um pouco e seguiu-a. Ouviu o choro da jovem. Abriu a porta, e sentando-se na cama, perguntou:
- Que aconteceu, Isabel? Há uma hora atrás, parecia que estava tudo bem.
- Ele lembrou-se de mim, avó.
- Lembrou-se? Como assim?
-Disse que se esqueceu de perguntar-te pela tua neta, que sempre estava por cá nesta altura.
- E isso que tem, Isabel? Eram tão amigos, é natural que se lembre. Filha se não te explicas, não consigo perceber, porque é que isso te faz chorar. Afinal a minha neta, és tu.
- É que ele disse que a amava como uma irmã. Como uma irmã, avó. Entendes? Foi assim que ele me viu há dez anos, foi assim que sempre me amou. Em contrapartida, eu sempre o amei como homem. Desde os doze  anos, antes mesmo de saber o que era o amor. Não me consigo imaginar com mais ninguém. E não penses que nestes dez anos, não tentei. Eu pensei que se fosse trabalhar com ele, sem ele saber quem eu era, podia fazer com que se apaixonasse por mim. Mas ou sou a sua secretária, ou a amiga, com quem gosta de conversar. Nunca mostrou qualquer interesse pela mulher que sou. Acreditas que nunca me tocou?
-Nunca te tocou, como?
- Tu sabes que os invisuais sentem as coisas com a ponta dos dedos. Ele nunca me pediu para tocar o meu rosto. Não lhe interessa se tenho a pele lisa, ou cheia de rugas.
-Ele não acabou, já o livro? Então o que tens a fazer, é deixá-lo e seguires com a tua vida. Ainda que agora te pareça impossível, um dia acabarás por esquecê-lo. O tempo é um excelente remédio. Não queiras transformar-te numa heroína da Idade Média. Hoje em dia já ninguém morre por amor. Vamos lá, vai tomar banho e vem ajudar-me com o jantar. E vai pensando no que te disse.
Levantou-se e dirigiu-se para a porta. Embora sentindo-se impotente perante o sofrimento da neta, tinha que ser firme. Gostava do jovem. Conheceu-o de garoto, viu-o crescer e fazer-se homem. Depois os pais morreram, ele ficou sozinho, e de vez em quando, visitavam-se. Confiava tanto nele, que nem se preocupou com a admiração da neta por ele, nem com os constantes passeios dos dois. Nunca lhe passou pela cabeça que o perigo para a neta, viria dos seus próprios sentimentos. Nem mesmo quando mais tarde suspeitou disso, sempre pensou que era uma paixoneta de garota que logo esqueceria. Agora estava assustada com a força daquele sentimento.


SONHO AO LUAR - PARTE XII


Um mês depois, tinha-se estabelecido uma grande amizade entre os dois. O livro estava quase pronto, e era frequente vê-los, passeando, ora até à praia, ora aventurando-se pelos caminhos da serra. Para Isabel era como se tivesse voltado dez anos atrás, quando inseparáveis percorriam aqueles mesmos caminhos, em longas conversas.
Raro era o dia, que a avó não lhe chamava a atenção, preocupada que estava com a sua felicidade. Ela, fazia ouvidos de mercador, empenhada em desfrutar ao máximo da companhia dele. Tinha pedido férias sem vencimento, no escritório, e pensava todos os dias, que tinha que procurar um espaço para montar o seu escritório, mas arranjava sempre uma desculpa para adiar essa resolução.
Uma tarde, depois de terem estado durante uma hora a rever o último capítulo, ela lendo o que estava escrito, ele corrigindo frases, mudando palavras, deram enfim o livro por terminado.
No dia seguinte sairia para a editora.
Então, ele disse-lhe que ia visitar a idosa, da casa ao lado, e pediu-lhe para o acompanhar. Ficou aflita, não podia avisar a avó, e receava o que ela pudesse dizer.
Ele cumprimentou carinhosamente a senhora, que o levou para a sala, onde conversaram sobre a sua ausência, e o tempo que esperava ficar.
Depois a avó disse que ia fazer um chá, e Isabel ofereceu-se para a ajudar, a fim de recomendar à avó, que não a desmascarasse.
A visita foi muito agradável, e acabou por se prolongar. Na volta, ele rompeu o silêncio para dizer.
-É uma senhora muito agradável. Tanto que me esqueci de lhe perguntar pela neta. Antigamente ela estava sempre cá, de férias, nesta altura do ano.
Isabel estremeceu. Ele lembrava-se dela. Com voz tremente, perguntou:
-Eram amigos?
- Amigos? Não. Era muito mais do que uma amiga. Era uma irmã.
Ela deu graças a Deus por ele não a poder ver. Uma irmã. Foi assim que ele sempre a viu. Por isso ficou tão zangado naquele dia. Com raiva, limpou as lágrimas que iam deixando um rasto molhado no rosto pálido. Percorreram em silêncio, o resto do caminho. Depois ele recolheu-se ao quarto, enquanto ela morta de dor, arrumou a secretária, pegou na mala e foi para casa. Ficaria muito surpreendida, se tivesse visto o sorriso enigmático do homem, quando meia hora depois regressou ao escritório.