25.9.17

SEM TITULO PARTE I




Afastou a cadeira e levantou-se. Estava cansado. Há horas que lia e relia aquele processo e não conseguia concentrar-se. Foi até à janela. Pensativo passou a mão pela testa. Tinha que se concentrar. O julgamento era dentro de três dias e o seu opositor era um advogado de renome. Santiago Castro, um dos nomes mais fortes da história atual, na advocacia, um homem frio que nunca perdia um caso.
Salvador Rodrigues, estava no mesmo barco. Também nunca tinha perdido um caso, mas os dois nunca se tinham enfrentado, até aquela data. Ia ser o julgamento do ano, já que um deles seria derrotado pela primeira vez, e os dois temiam-se por igual.
Salvador no entanto sabia que não era o julgamento que o deixara naquele estado. O problema era pessoal, e isso é que o estava a impedir de se concentrar na defesa do seu cliente, em cuja inocência ele acreditava piamente.
Não se perdoaria se por erro seu, o cliente, fosse condenado. Ouviram-se umas pancadas na porta e de seguida uma mulher entrou na sala.
- Vou ao café. Queres que te traga algo para comeres? Há horas que estás aqui fechado, nem sequer foste almoçar.
Raquel a sua secretária, era uma mulher de baixa estatura, corpo roliço e rosto simpático. Rondava os cinquenta anos, e conhecia Salvador desde menino. Estava no escritório, há quase trinta anos. Fora secretária do seu pai, e continuara no escritório, quando ele se reformara e passara para o filho mais novo o escritório e a sua carteira de clientes. Raúl o mais velho dos dois irmãos não quis saber da advocacia. Aliás ele não quis saber da Universidade. Largou os estudos mal terminou o Secundário. Sempre se interessou pelo desporto e se bem que nunca pensou ser profissional, nem competiu em nenhuma modalidade, na hora em que recebeu a parte da herança da mãe, abriu um estabelecimento de artigos desportivos, em Cascais e as coisas estavam a correr tão bem que em breve pensava abrir uma filial, numa cidade no Algarve, estando ainda a pesquisar o melhor local para ela.
-Obrigada, Raquel. Não me apetece comer. Se puderes trazer-me um café, antes de ires…
-Não. Só se comeres alguma coisa antes. Já te trouxe seis cafés, desde que chegaste. Queres sofrer uma “overdose” de cafeína? Não acredito que esteja assim tão difícil essa defesa.
- Não. Eu é que estou com os níveis de concentração muito em baixo. Vai lá então e traz-me uma sandes de presunto e uma água mineral.
 - Ok. Não me demoro. Vou passar a ligação telefónica para o teu gabinete enquanto me ausento.
Saiu deixando-o só. Cinco minutos depois, estava de volta. O que não admirava já que o café se situava no piso inferior do mesmo edifício do escritório.


NOTA. ACABOU-SE A INSPIRAÇÃO PARA O TITULO DESTE CONTO. ASSIM IRÁ SER PUBLICADO COM SEM TITULO. PEÇO A VOSSA COLABORAÇÃO. QUEM ME VAI AJUDAR A ENCONTRAR-LHE UM TITULO?
AGUARDO AS VOSSAS SUGESTÕES

24.9.17

PORQUE HOJE É DOMINGO




O meu olhar é… mágico


O meu olhar é mágico. 
Ele é o portal de entrada na vida que me rodeia.
É a borboleta que dança inebriada
Sobre um canteiro florido.
Ele é a alegria esfuziante da criança,
Que brinca
Sob o atento olhar da mãe, que sonha
Para ela um futuro radioso.
Ele é o Amor latente nos jovens
Que trocam beijos num banco de jardim.
O meu olhar é mágico
Ele é a lágrima escondida na solidão dos idosos
A quem o desemprego levou
Os filhos na mala da emigração.
É a dor sem tamanho daquela mãe
A quem um acidente brutal roubou
A luz dos seus olhos.
Ele é o mar que no horizonte
Se funde no espaço celeste.
Ele é a nuvem que passa
O vento que verga as árvores
E o sol que a todos afaga.
O meu olhar é mágico
Porque ele é o portal das emoções
Que compõem a Sinfonia da Vida.

Maria Elvira Carvalho.


in  Antologia de Poesia Contemporânea, Entre o sono e o sonho vol V tomo II Pag. 253
Chiado Editora






23.9.17

A LENDA DE SANTO ANTÓNIO DA CHARNECA

Tal como informei no post anterior, dou seguimento ao desafio
foto da Igreja de Santo António da Chaneca


jardim com a imagem do Santo como terá sido visto pelo escravo


Lenda do Santo António da Charneca 
Havia no Alentejo um rico proprietário que tinha feito a sua fortuna nas Índias, de onde trouxe uma filha e um escravo. D. Aires de Saldanha tinha um feitio difícil e ideias fixas: obrigava o seu escravo Macumba a ir todos os dias recolher lenha por serras distantes e guardava bem fechada no seu solar a sua bela filha Ana. A partir de um certo momento, o escravo Macumba passou a cruzar-se com um frade franciscano que provocava uma estranha perturbação nos bois que puxavam o carro de lenha: os bois tremiam e curvavam-se diante do frade em obediência ritual. A princípio o escravo irritou-se mas quando descobriu que se tratava de Santo António tremeu de emoção e julgou-se indigno da sua presença. Macumba deveria transmitir ao patrão o desejo de Santo António de ver construída uma capelinha e de dizer à jovem Ana que esta sofria porque não tinha fé suficiente. Quando Macumba contou a Ana o sucedido esta não acreditou nele e impediu-o de falar com o seu pai. Então, Santo António falou com Ana e transmitiu-lhe o seu desejo e também que ela realizaria em breve o seu sonho de se casar. No dia seguinte, e segundo as instruções de Santo António, os bois foram largados e no lugar onde pararam e começaram a escavar a terra surgiram cal e areia. A população construiu nesse mesmo lugar a capelinha mais bonita de toda a região. Ana casou-se com um mensageiro que na semana seguinte chegou ao solar e Macumba, agora homem livre, dedicou-se para sempre ao culto do seu santo protector.


Fonte

 Fonte: http://lendasdeportugal.no.sapo.pt/distritos/setubal.htm 


E uma vez que Lagos  é a cidade do mais-que-tudo e também minha por adoção, aqui vai uma lenda da zona






A Fonte Coberta
Em um sítio chamado a Fonte Coberta, nas proximidades de Lagos, existe encantado um mouro ou uma moura. Em certa ocasião foi uma pobre mulher buscar água à fonte, e ao afastar-se viu duas esteiras com belos figos secos a enxugar ao sol.
No Algarve há por assim dizer duas diversas exposições de figos:
uma por ocasião de seca geral, e é quando o figo, apanhado já muito maduro, pincre, lhe chamam os algarvios, é conservado ao sol até secar de todo, e capaz de entrar nas tulhas de cana ou gamão, onde é acalcado e conservado; a outra, para consumo da família, sendo previamente lavado e posto ao sol a enxugar.
Não pôde a pobre mulher resistir ao desejo de lançar mão a alguns figos e apanhou cinco. A certa distância reparou que era seguida de uma criancinha a chorar, chamando pela mãe.
Perguntou a mulher à criança por que razão chorava, a criança porém em vez de dar qualquer resposta chorava cada vez mais.
Comoveu-se ela, e na suposição de que a criança tinha fome, meteu a mão nos bolsos e tirou dois figos para lhe dar. Qual não foi o seu espanto quando em lugar do figos se encontrou com cinco peças de ouro!… Nesse mesmo momento a criança desapareceu, aparecendo em seu lugar um homem trigueiro, vestido ao modo dos maltezes, de barrete vermelho e com um varapau na mão.
Atemorizou-se a mulher do súbito aparecimento do homem; este, porém, respondeu-lhe:
— Bruta, que não soubeste aproveitar-te dos figos, podendo apanhar os que quisesses!
E ao mesmo tempo que disse estas palavras também desapareceu.
Em outra ocasião passou junto da mesma fonte uma tendeira, chamada Mariana, e viu próximo uma criancinha de barrete encarnado. A tendeira ficou naturalmente surpreendida e atemorizada, porque já a esse tempo ouvira dizer que ali apareciam mouros encantados.
A criancinha, porém, sem fazer reparo na surpresa da tendeira, aproximou-se-lhe e disse:
— Dou-te uma boa porção de feijões, se me prometeres não os distribuires por outras pessoas.
E ao mesmo tempo mostrou-lhe uma boa porção de feijão branco.
A mulher prometeu à criança cumprir a condição e encheu uma alcofa do referido legume.
Mais adiante encontrou ela um homem e pediu-lhe com muitas instâncias que lhe desse os feijões, que levava consigo. Respondeu-lhe a mulher que lhos não podia dar, pois os recebera com a condição de os não distribuir por ninguém. Impôs-se-lhe o homem dizendo que a criança era seu filho, e que este lhe oferecera os feijões sem a sua autorização. A mulher abriu a alcofa e ficou admirada de encontrar os feijões substituídos por belos pintos antigos de prata.
O homem disse-lhe:
— Não te aconselharam a que não desses a ninguém os feijões?…
Quando a mulher ia a dar a resposta, já não viu o homem: tinha desaparecido como o fumo.
Estes dois casos e muitos outros andam na memória de toda a gente que reside próximo da fonte. Os velhos contam-nos por os ter ouvido contar aos seus avós, e estes aos seus avoengos. Como em muitas outras lendas de mouras encantadas, desconhece-se a razão por que ali se encontram encantados os tristes mouros.
Estes contos são sempre ouvidos com o profundo respeito de quem assiste à narração de um milagre autêntico.
OLIVEIRA, Francisco Xavier d’Ataíde As Mouras Encantadas e os Encantamentos do Algarve Loulé, Notícias de Loulé, 1996 [1898] , p.245-246

Nota: Se algum dos que me acompanham, conhecerem alguma lenda e a quiserem contar nos seus espaços por favor digam nos comentários neste link, para que todos possamos acompanhar

22.9.17

AVISO À NAVEGAÇÃO



Terminada que foi mais uma história, (a última das três escrita antes das férias) e resolvido o problema do pc avariado, publicarei a partir de segunda  dia 25 uma nova história. Ando às voltas com o titulo, se até lá não me ocorrer nada, publico-a assim mesmo e peço a vossa ajuda para o titulo. Até lá, informo que amanhã, sábado, publicarei uma lenda, dando continuidade a um desafio que corre na net, iniciado pela CATARINA e pela PAPOILA, e que já conta com a participação de vários blogues. No "LEGENDEIRO DA AFRODITE" poderão ver quem já participou e se estiverem interessados em participar, deixem a indicação nos comentários para que possamos todos acompanhar.
Uma vez mais agradeço o carinho e paciência com que acompanham as minhas histórias. 
Um bem haja para todos vós.

21.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE XX




- Mas isso é uma ótima noticia. – Soltou-a. - Vem, vamos para a sala, quero que me contes tudo. Senta-te aqui ao meu lado,- disse afundando-se no sofá.
- O café!
- Quem quer saber de café agora? – Estendeu-lhe a mão num convite mudo.
Ela sentou-se a seu lado e ele passou-lhe o braço pelos ombros puxando-a para si.
- Conta-me tudo. Não, deixa-me adivinhar, o Pedro descobriu que foi mesmo o Fernando?
Ela relatou-lhe a conversa tida com o inspetor nessa tarde.
- Tenho pena do António. Não merecia este desgosto. Aquele sobrinho é a única família que lhe resta. Amanhã mesmo vou pedir ao nosso advogado que tome conta do caso, e tenho a certeza de que não demorará muito, terás o teu pai em casa. E mais tarde, quando se recuperar, faço questão de o readmitir.
Levantou-lhe o queixo, procurando o seu olhar.
- E então não haverá nada mais que impeça a nossa união. Quero que saibas, que até que te conheci, nunca acreditei no amor tal como o descrevem os apaixonados. O amor para mim era uma utopia, uma miragem, o que me interessava mesmo era o sexo. Todos os meus amigos, sabiam que eu era assim, e nenhum deles acreditaria ainda que lhes jurasse, que há meses venho a tua casa apenas para estar contigo, sem nunca ir contigo para a cama. E no entanto aconteceu, não porque não te deseje, e Santo Deus, como te desejo, mas porque és diferente de todas as outras. E és diferente, porque te amo, porque desejo fazer parte da tua vida, até ao meu último suspiro. Entendes?
- Como não ia entender, se comungo do mesmo sonho?
Segurou o rosto dele entre as suas mãos, e pediu quase sem voz:
-Por favor Gabriel. Vai-te agora! Não consigo ser tua enquanto não vir meu pai reabilitado. Mesmo amando-te com todo o meu ser.



EPILOGO





Um mês depois, o juiz assinava a revogação da pena e ordenava a libertação de Joaquim Machado, bem como a prisão preventiva de Fernando Lourenço.
As marcas do tempo e da vergonha eram bem visíveis no rosto e no corpo do pai da jovem, que parecia ter envelhecido mais de dez anos naqueles quatro anos de cativeiro.
À sua espera tinha a filha, que lhe explicou como tinha chegado ao verdadeiro culpado, bem como o papel importante de Gabriel e do seu amigo inspetor em todo o processo.
Não foi difícil para o homem que ouvia, reparar no brilho dos olhos da filha cada vez que falava do seu chefe. Temeu por ela. Afinal eles eram pobres, viviam do seu salário, o empresário era um homem muito rico e com fama de mulherengo.  Mas o temor só durou até à noite quando Gabriel se apresentou em sua casa, para pedir a mão de Sandra com anel de noivado, e a informação de que queria casar o mais rápido possível.
Quando os jornais sensacionalistas, tiveram conhecimento do noivado, muita coisa se escreveu, chegando a dizerem que Gabriel se casava com a filha do homem que estivera injustamente preso, para evitar um processo de indemnização.
Eles não se importaram. Sabiam dos sentimentos que os uniam, e do longo percurso percorrido até aquele momento.
A noiva fez questão de uma cerimonia simples e intima, apenas para os familiares e padrinhos.
Ela não queria continuar a ver-se nas páginas dos jornais, nem a ler as mentiras com que a imprensa os brindava
Com a bênção paterna, casaram duas semanas depois.
Dias mais tarde, em plena lua-de-mel, na pista de dança do hotel, ele confessava-lhe que se apaixonara por ela, ao vê-la dançar o tango, e que desde aí, sonhava com o momento em que os dois o dançassem juntos.
E então como se os músicos tivessem ouvido as suas palavras, ouviram-se os primeiros acordes da música “À média luz”



Fim

Elvira Carvalho


19.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE XIX


Chegou nessa noite, e foi direto para casa dela. Estava morto de saudades. Fizera todos os possíveis para se esquecer dela, durante aqueles dias, procurara divertir-se com outras mulheres, mas nenhuma conseguiu romper a armadura com que aquele novo sentimento o vestira. Estava irremediavelmente apaixonado, por aquela mulher maravilhosa de corpo e alma. Uma mulher que por lealdade ao amor filial era capaz de tudo, até de se arriscar a ser presa. E ele queria essa capacidade de amar e de se dar para ele. Mais do que querer. Necessitava-o com toda a sua alma. Resistira. Claro que resistira, nunca pensara em casamento, nunca sentira aquela necessidade de ter, e de se dar a uma determinada pessoa. Nos seus relacionamentos anteriores, nunca esteve nada em jogo, que não fosse o sexo, quanto mais prazeroso melhor. Com ela foi diferente desde o primeiro momento, e não porque não lhe despertasse a libido. Santo Deus, nunca tinha tomado tantos duches gelados. Mas sempre soube, que no dia em que se deitasse com ela, não se contentaria com menos do que o resto da sua vida. E era disso que ele tinha medo. Disso que fugia. Aqueles dias de ausência, acabaram com toda a sua resistência. Estava ansioso por chegar, por apertá-las nos braços e beijá-la até se cansar. Até se cansar? Tinha a certeza de que nunca se cansaria. Apanhou um táxi no aeroporto, e deu a morada dela. Ansioso por a ver, tocou a campainha, uma, duas, três vezes.
Franqueou-lhe a passagem, surpresa com a mala que carregava. Ele entrou, largou a mala, e pegando-lhe num braço puxou-a para si e sem deixar de a fitar, beijou-a. Um leve toque na boca, como que um roçar de ave, que a fez suspirar e entreabrir os lábios, e logo ele a invadiu num beijo urgente e desesperado, que os deixou sem fôlego. Ela apertou o seu corpo contra o dele, numa entrega que o enlouqueceu. Finalmente afastou-a um pouco, sem deixar de a fitar, nem de a abraçar.
- Amo-te. Sabes isso não sabes? – Perguntou a voz enrouquecida pela paixão.
Confirmou com um gesto mudo, uma lágrima rolando pela face.
-Também me amas, mas…? – Perguntou preocupado com a sombra de tristeza, nos olhos dela.
-Não pode haver futuro para nós, enquanto o nome de meu pai, não for reabilitado. Não quero que os meus filhos saibam que o avô esteve preso, acusado de ter roubado a empresa do pai.
- Sandra, eu acredito na inocência dele. Mas não sei se conseguiremos prová-lo ao fim destes anos todos. Por favor, não condenes tu também o nosso amor.
- Talvez não seja tão difícil assim. O inspetor procurou-me hoje. Acredita que descobriu quem fez o desfalque, e pediu para arranjar um advogado e pô-lo em contacto com ele.


À MÉDIA LUZ - PARTE XVIII


Um mês se passara, sem qualquer novidade digna de relevo na vida de Sandra. Continuava a ser uma excelente secretária, e a ver Gabriel quase todas as noites, num convívio que se ia a pouco-e-pouco tornando mais difícil, com o homem fugindo dos seus sentimentos e ela sofrendo em silêncio, numa espera feita de ansiedade e desespero. Continuava a ir ver o pai sempre que as visitas eram permitidas, e cada dia o achava mais desanimado.
Gabriel viajara para o estrangeiro, há quatro dias, quando o inspetor se apresentou no escritório, finalmente portador de uma boa notícia. Tinha conseguido a prova para reabrir o processo e libertar o pai de Sandra.
Reunira as provas precisas contra Fernando e podia agora provar sem qualquer dúvida que fora ele quem se apoderara do dinheiro e forjara as provas que haveriam de condenar o contabilista. O homem tinha o vício do jogo, mas era um jogador azarado. Perdera grandes somas de dinheiro, e estava a ser ameaçado de morte, pelo que o dinheiro do desfalque servira para pagar as dívidas de jogo. O dinheiro mal entrara na sua conta, fora direcionado, para o pagamento dessas dívidas.
- Então e agora? – Perguntou a jovem.
Agora vamos entregar ao juiz, o resultado desta investigação, e esperar que ele ordene a reabertura do processo e revogue a sentença que ditou a prisão do seu pai.
- Vai levar muito tempo?
Algum. E há outra coisa. Eu não poso fazer isso, toda esta investigação, foi feita de modo particular. Isto tem que ser tratado por um advogado. Vocês têm algum?
- Não. Na verdade na altura meu pai, foi defendido por um advogado nomeado oficialmente. O ano passado consultei um de renome, mas cobra muito caro. E nós só podemos contar com o meu ordenado.
- Bom, vai ter que nomear um, para que possa tratar disto. Quando o tiver, ele que entre em contacto comigo e eu entregarei todas as provas que consegui. Agora o mais importante, é que seu pai pode provar a sua inocência, sair em liberdade, e provavelmente até ser indemnizado por danos morais. E o Gabriel, quando volta?
- Não sei. Penso que chegará esta noite, ou amanhã de manhã. Tem uma reunião agendada com uns clientes para amanhã à tarde, e não me pediu para cancelá-la.
- Diga-lhe que me ligue.


18.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE XVII


Ela que nunca fazia perguntas, não se conteve e perguntou enquanto lhe servia o café.
-Então? Há alguma novidade?
- O Pedro pensa que pode haver. Ele encontrou uma imagem do Fernando, no gabinete de contabilidade. O registo da hora, marca as vinte e duas horas, e a essa hora é suposto não haver ninguém na firma, a não ser alguém que esteja a fazer serão para acabar algum trabalho extra. Se fosse o teu pai que lá estivesse a essa hora, seria normal. Qualquer outra pessoa, não podia estar ali, aquela hora.
- E quem é esse Fernando?
- O sobrinho do meu ex-sócio. O curioso é que ele nunca trabalhou na empresa, oficialmente. Mas lembro que uns dois meses antes de descobrirmos o desvio, ele passou um tempo lá, ajudando o tio, que tinha sofrido um enfarte e estava muito débil.
- Então pode ter sido esse Fernando, a cometer o desfalque?
- Pode. Mas para ter acesso ao dinheiro ele tinha que ter acesso à senha do teu pai. O Pedro, diz que tem que investigar a vida do Fernando, por essa altura. Só com todas essas informações, poderá ter na mão a chave para reabrir o processo.
- Mas como é que ele soube a senha do meu pai?
-Na altura ainda não tínhamos o actual sistema de segurança. Ele só foi introduzido depois do desfalque. Tínhamos  segurança privada nas instalações, mas a segurança informática e bancária deixava muito a desejar.
Segundo o Pedro, se ele conheceu a senha do tio, era fácil conhecer as outras, já que na altura, havia uma senha unica, que correspondia à empresa, seguida da inicial do nome do utilizador. Ele não ia utilizar a senha do tio nem a minha. Se utilizasse a da Alice, provavelmente ninguém acreditaria e a investigação podia chegar até ele. Mas utilizando a do teu pai, e sobretudo  adulterando os livros, provava a culpabilidade dele. Acontece que é essencial saber, se havia motivações e tentar seguir o rasto do dinheiro. Só conseguindo-o teremos a prova, para reabrir o processo.
- Obrigada. Nunca te poderei pagar o que estás a fazer por nós. O meu pai tem sofrido tanto!
-É também por mim. Não posso permitir que haja quem pense que o fiz para obrigar o meu sócio a vender-me a sua parte, e acabei condenando um inocente à prisão.
- Nunca me perdoarás, pois não? – Perguntou com tristeza.
Ele sorriu.
-Não há nada a perdoar Sandra. Se estivesse no teu lugar, era capaz de ter pensado o mesmo.
Levantou-se, e encaminhou-se para a porta.
- Vai descansar. Quem sabe, não demorará muito a teres o teu pai de volta.


17.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE XVI





Pouco passava das dezassete quando o inspetor ligou.
Sandra passou a chamada para Gabriel, e ficou ansiosa para saber se havia alguma novidade, mas não se atreveu a entrar no gabinete sem ser chamada. Pouco depois a luz na sua secretária acendeu-se e ela levantou-se e entrou no gabinete dele. Não perguntou nada, mas a interrogação estava patente nos seus olhos.
- Nada de concreto, mas parece que o Pedro detetou qualquer coisa numa das vídeo gravações, e deseja um esclarecimento. Combinei ir a sua casa, logo à noite. Queres ir?
- Não. Não trabalhava cá na altura, não sei como poderia ser útil. Precisas de alguma coisa?
- Não. Sabia que estavas ansiosa, por isso te chamei. Nada mais por agora.
Ela saiu. Estava quase na sua hora de saída, devia começar a arrumar as coisas, mas só pensava, no que seria, que o inspetor tinha encontrado. Algum dia, conseguiria provar a inocência do pai, e limpar o seu nome? Coitado do pai. Estava cada dia mais abatido, cada dia mais desiludido com a justiça. Por isso ela não contou nada ao pai, nem mesmo quando ele lhe disse que um inspetor o tinha visitado, e feito uma série de perguntas. Tinha medo de lhe criar ilusões que não se concretizando, só serviriam, para um maior sofrimento.
Por fim fechou o computador, arrumou as pastas, fechou gavetas, e pegando na mala, saiu.
Ainda precisava passar pelo supermercado, para fazer umas compras. Depois iria mergulhar na rotina de todos os dias. Desde que seu pai fora condenado, a vida de Sandra virou do avesso. Teve que abandonar o seu sonho de vir a tornar-se professora de dança, e procurar emprego.  As visitas ao pai, o desejo de conseguir provar a sua inocência,o  emprego na empresa onde o pai trabalhara, e por fim aquela apresentação na academia, que voltou a baralhar tudo, mostrando-lhe uma faceta do seu chefe, com a qual nunca sequer sonhara, mas que calou fundo na sua alma sofrida e a conquistou.
Acabara de arrumar a cozinha. Olhou o relógio. Dez horas. Será que ele vinha esta noite? E se viesse traria boas notícias? Como respondendo à sua pergunta a campainha fez-se ouvir e ela apressou-se a abrir a porta.




Que vos parece? Descartado Gabriel, quem terá feito o desfalque. Alice? O ex sócio de Gabriel? Ou Sandra está completamente enganada com respeito ao pai?


À MÉDIA LUZ - PARTE XV






Depois daquele fim-de-semana alucinante, em que o patinho feio da empresa se transformou num belo cisne, e fechadas que foram as bocas de espanto, com o novo visual da secretária, a vida parecia ter voltado ao normal. Parecia, porque não raras vezes, durante aqueles dias, Gabriel visitava Sandra à noite. Chegava pelas dez horas, perguntava se ela lhe oferecia um café, e seguia para a sala, enquanto ela ia preparar a aromática bebida. Durante uma hora, conversavam de tudo e de nada, e pelas onze horas ele levantava-se e ia embora. Ninguém que conhecesse Gabriel, acreditaria, que nunca houvera nada entre eles, nem sequer o mais casto dos beijos. Durante as horas de expediente, as suas relações eram as de qualquer chefe com a sua empregada. À noite, eram… bom a falar verdade nem ele mesmo sabia o que eram. Só sabia que aquele estranho ritual lhe dava um imenso prazer, e que se sentia ali, como alguém que anda perdido e de repente encontra o seu porto de abrigo.
Por vezes sentia uma vontade louca de a beijar. Porém conhecia-se bem demais. Sabia que se a beijasse, não se contentaria só com isso. Por isso, quando o desejo ameaçava tornar-se maior do que a sua força de vontade, levantava-se e ia embora.
Sandra não dizia nada. Limitava-se a fechar a porta e a encostar-se nela sorrindo tristemente. Estava apaixonada por ele, desde que compreendera que Gabriel não só tinha nada a ver com o desfalque, como estava decidido a ajudá-la a descobrir a verdade. Mas não acreditava no futuro daquele amor. Afinal ele era um homem rico, com uma grande empresa, e ela era apenas a filha do homem que segundo a justiça o roubara.
No seu intimo, sabe que ele também a ama, embora ele próprio talvez ainda não o saiba. Conhece-lhe o desejo, percebe a luta que ele trava consigo mesmo.
Gabriel sabe, que ela nunca será sua amante. Do mesmo modo que sabe, que ainda não está preparado para aceitar e viver uma relação séria de marido e mulher. Por isso vivem assim,a vida pela metade, o sonho presente, uma hora por dia, quase todas as noites.
E já se passaram quinze dias e o inspetor ainda não deu qualquer sinal de vida.


16.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE XIV





- Estou a ver. E porque mudou de ideias?
- O senhor Gabriel descobriu-me. Na academia de dança.
- À sim, essa parte já conheço. E então o que fez, além de ser a secretária do chefe?
- Eu, - voltou a olhar o rosto de Gabriel, como que pedindo desculpa. – Revirei as gavetas do escritório, e pesquisei as pastas.
- E…
- Nada, senhor.
- Sabe que me espanta a sua ingenuidade? Então pensa que se o Gabriel, tivesse feito o que pensou, ele deixaria as provas aqui à espera que alguém as viesse procurar?
Voltou-se para Gabriel.
- Já tinhas câmaras de vigilância na altura do desfalque?
- Já.
E tens todas as gravações guardadas, ou são apagadas ao fim de algum tempo?
-Creio que estejam todas guardadas, mas sinceramente não sei. É a empresa de segurança que trata disso. Mas já te digo. É só chamar o segurança de serviço.
- Quem mais podia ter acesso à conta da empresa, sem seres tu, e o teu sócio?
- Naquela altura, a firma não funcionava como agora. O contabilista e a secretária, tinha acesso à conta.
- A secretária? Tua ou do teu sócio? E o que foi feito dessa secretária?
-A Alice assessorava-nos aos dois. Era uma senhora de meia-idade, que estava na firma desde a sua fundação. Faleceu há dois anos. Ataque cardíaco.
Bateram à porta e o segurança entrou.
- Boas-tardes.
 - Boa-tarde, Francisco. Gostaria de saber o que fazem vocês às cassetes de video vigilância.
- Estão todas arquivadas por ano e mês, lá no depósito. Desde o início até às do mês passado.
- Obrigado. Pode retirar-se.
- Pensas que pode estar lá qualquer coisa que escapou aos investigadores? – Perguntou Gabriel.
- Não sei. Mas pode acontecer, se a data do desvio não coincidir com a data em que vocês deram por isso. Diz-me uma coisa, tens confiança no teu ex-sócio?
- Absoluta.
O inspetor, ficou por momentos pensativo. Depois disse olhando para Sandra.
- Estou disposto a ajudar. Vou ter que analisar as cassetes da video vigilância, desde o dia em que foi detetado o desvio até três meses antes. Espero que as tenhas todas amanhã à tarde. Passarei por aqui a recolhê-las. Peço que mantenham segredo absoluto sobre as nossas intenções, e não quero que ninguém saiba que a Sandra é filha do contabilista. Para todos os efeitos, tudo tem que continuar como até hoje. Entendido?
-Sim - disseram os dois em uníssono.
- Então creio que podemos ir. – Voltou-se para Gabriel. – Não te esqueças de ter as cassetes separadas para eu levar amanhã à tarde. Sandra, talvez tenha que ir visitar o seu pai. Ele está onde?
- Em Monsanto.
-Muito bem. Vamos?
E os três encaminharam-se para a saída, onde se despediram e partiram cada qual para seu lado.


15.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE XIII







No dia seguinte, depois de muito pensar, Gabriel decidiu que o melhor local para se encontrarem e falarem sem serem interrompidos, seria no seu escritório, na empresa, que, como era domingo, estava fechada. Depois telefonou ao amigo e à jovem informando-os da sua decisão e confirmando o horário.
Chegou um pouco antes da hora, e aguardou no parque a chegada dos outros dois. Logo depois, Sandra chegou. Trajava um vestido preto que se ajustava ao corpo como uma luva e lhe descia até quase aos joelhos. Por cima uma casaquinha branca debruada a preto. Gabriel ficou contente por ela ter posto de lado as ridículas e antiquadas roupas que usara até ao fim de semana. O cabelo estava preso como de costume. Simples e muito elegante. Pouco depois, chegou o inspetor, e Gabriel apresentou-os. Depois dirigiram-se para o escritório onde se sentaram. O inspetor foi o primeiro a quebrar o silêncio.
- Bom, Sandra, o Gabriel pôs-me ao corrente do que fizeste. Parece que andaste por aqui, vasculhando, tentando encontrar alguma prova para ilibar o teu pai. Isso quer dizer que estás convencida que teu pai é inocente. Posso saber o que te dá essa certeza?
- O meu pai jurou-me. Mas não era preciso que o fizesse. Conheço-o desde que nasci. Ele foi meu pai, minha mãe, meu amigo. Confio nele como em mim mesma, senhor.
- Muito bem. E que mais te disse teu pai, além de jurar, que era inocente?
- Ele disse que alguém tinha armado as provas para o incriminar. E que se descobrisse quem o fez, descobriria quem tinha o dinheiro.
-Teu pai desconfiava de alguém em particular?
- Não senhor.
- E tu? Desconfiaste de alguém?
Ela enrubesceu e olhou o rosto de Gabriel. Sentiu como o rosto masculino endurecia, sentiu que estava magoado, mas ela tinha que ser sincera.
- A princípio pensei no senhor Gabriel Santana. Soube que poucos meses após a condenação do meu pai, comprou as acções do sócio, e pensei que podia ter feito o desfalque para desestabilizar a firma e fazer com que o sócio vendesse.
- E por isso conseguiste o lugar de secretária dele?
- Isso foi uma questão de sorte. Eu estava desempregada quando vi o anúncio para a vaga e resolvi candidatar-me.
- És muito bonita, Sandra. Esperavas apanhar o Gabriel seduzindo-o?
Sem se conter, Gabriel soltou uma gargalhada, enquanto ela corava até à raiz do cabelo.
- O que é que eu disse de tão engraçado?
- É que não te contei. A Sandra resolveu disfarçar-se de alguém sem graça. Devias tê-la visto. Se não fosse uma ótima profissional, tinha-a despedido no segundo dia. Parecia... uma dama de um quadro de museu.


14.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE XII




Sandra estava sentada no sofá, as pernas debaixo do corpo, coberto por um robe de seda azul-celeste. Tinha o cabelo preso num rabo-de-cavalo, e olhava sem ver  a televisão, na qual passava um filme. Ouviu ao longe um som de campainha, mas absorta nos seus pensamentos, nem se apercebeu de que não era no filme, já que a TV estava sem som.
A campainha voltou a tocar, desta vez, mais insistente, e ela pôs-se de pé, e descalça dirigiu-se à porta. Abriu-a um pouco sem tirar a corrente, e arregalou os olhos de espanto ao ver Gabriel do outro lado. Voltou a fechar a porta, tirou a corrente e então abriu-a.
- Boa-noite – saudou ele, fechando a porta atrás de si.
- Boa-noite, - respondeu e dirigiu-se para a sala, sem uma pergunta, como se fosse normal, a visita dele aquela hora.
- Desculpa, sei que é tarde, mas precisava falar contigo.
Olhou-a da cabeça aos pés. Parecia uma miúda. Uma miúda perdida e sem proteção. Sentiu um desejo enorme de a abraçar, de lhe dar a proteção que ela precisava, mas não se atreveu sequer a estender a mão para lhe tocar. Cerrou os olhos, confuso. Que raio se passava com ele?
- Quer tomar alguma coisa? Não tenho bebidas alcoólicas, mas um café ou chá, posso fazer num minuto.
-Aceito um café.
- Vou buscar.
Afastou-se em direção à cozinha. Ele recostou-se no sofá e cerrou os olhos. Sentia-se bem ali. A sala era pequena, mas confortável, e tinha um não sei quê de lar que lhe agradou. Minutos depois, ela voltou com uma bandeja onde fumegava uma chávena do aromático café, e um açucareiro. Sem usar o açúcar, ele agarrou na chávena.
- Não me acompanhas?
- Nunca bebo café à noite.
Decorreram uns minutos em silêncio. Depois ele quebrou o silêncio:
- Foste ver o teu pai?
- Fui.
- E como estava?
- Como queria que estivesse? Cada dia mais desmoralizado, - disse sem evitar que uma lágrima lhe rolasse pela face.
- Olha, é por isso que vim. Falei com um amigo meu, que é investigador da Judiciária. Ele diz que oficialmente não pode fazer nada, o julgamento foi feito a sentença está a ser cumprida. Para reabrir o processo seria necessária uma nova prova, ou um indício muito forte de erro judiciário.
- Eu sei. Foi o que me disse o advogado.
- Mas o meu amigo, está disposto a ajudar-nos particularmente, sob uma condição.
Ela levantou para ele os seus belos olhos verdes, num olhar interrogativo, mas não fez perguntas.
- Ele está livre amanhã. Quer conhecer-te, falar contigo. Só depois decide se nos ajuda. Penso que ele precisa ter a certeza de que estás certa da inocência do teu pai, não sei. Sei que foi a condição imposta por ele. Achas que nos podemos encontrar, por exemplo às dezasseis horas?
- Sim, claro que sim? Onde?
- Ainda não pensei. Ele sugeriu um local sossegado, onde pudéssemos falar à vontade.
- Aqui?
-Não, aqui não, - respondeu rapidamente sem nem mesmo pensar, porque lhe repugnava a ideia de levar outro homem para a casa dela.  Levantou-se, e encaminhou-se para a porta.
- Telefono-te amanhã perto do meio-dia. Vai descansar.







O pc, continua periclitante. Vamos a ver se se aguenta.



13.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE XI






- Estou! 
-Pedro Matias?
- Sim.
-Gabriel Santana. Lembras-te de mim?
-Gabriel, que milagre. Há quanto tempo, não sabia de ti.
- Olha, queres jantar comigo? Preciso conversar contigo.
- Comigo ou com o inspetor?
- Para falar verdade, penso que preciso dos dois.
- Bom, bom, tens que pagar dobrado, - deu uma risada. E a que horas? Às oito? Sim, sim sei onde é. Lá estarei.
- Obrigado.
Desligou o telemóvel e ficou pensativo. Se na manhã do dia anterior lhe dissessem que passaria parte de sábado a pensar num facto ocorrido há quase quatro anos, ele diria que era uma loucura. Porém ali estava ele, depois de uma noite mal dormida, cheia de pesadelos, em que a sua secretária e a bailarina se sobrepunham até formarem uma só pessoa, que lhe apontava o dedo acusando-o nem bem sabia porquê. Por isso ligara ao amigo. Pedro era inspetor da Judiciária. Mas era também um bom amigo apesar de ultimamente os seus caminhos não se terem cruzado. Mas no passado, tinham sido companheiros de estudos e de borga. Se alguém, de alguma forma podia ajudá-lo, esse alguém era Pedro.
Recostou-se na cadeira recriminando-se. Estava demasiado preocupado com um caso que a polícia já resolvera. Que não era assunto seu. Porém a imagem chorosa da jovem, não lhe saía da cabeça. Tentava dizer a si mesmo que era uma questão de justiça, mas será que era assim? Tinha que ser sincero consigo mesmo e pensar se ele agiria da mesma forma se não tivesse visto a transformação que a jovem sofrera. Se antes daquela noite, quando ela se apresentava no emprego, feita “quadro de museu” lhe tivesse contado aquela história, ele ajudá-la-ia? Para ser honesto consigo mesmo, tinha que reconhecer que talvez nem a tivesse ouvido. Procurou umas pastas de quatro anos antes, folheou-as, tirou uns apontamentos e voltou a guardá-las.
Fechou o computador, vestiu o casaco, guardou o telemóvel, e as chaves no bolso, pegou nos óculos escuros e saiu fechando a porta. No caminho para o carro saudou o segurança com quem se cruzou e finalmente saiu.




PEÇO  DESCULPA, pela minha ausência. O meu pc, está em agonia, desliga-se de 5 em 5 minutos. Vou continuar a tentar, mas o mais certo será ele ir amanhã para o hospital...


À MÉDIA LUZ - PARTE X





Ela olhou-o muito séria.
- Eu acredito. Mas tem que haver alguém, com acesso a esse dinheiro. Porque o meu pai não foi.
- Sabes que a polícia descobriu que a contabilidade da firma foi adulterada, não sabes?
- Sei. O meu pai, diz que não sabe quem o fez, mas acredita que quem o fez, foi a mesma pessoa que ficou com o dinheiro.
- E o teu pai, não desconfia de ninguém? Ou também está convencido que fui eu?
- Não. Ele não desconfia de ninguém. Fui eu que pensei, porque o senhor comprou a parte do seu sócio, pouco tempo depois.
-Parece que tenho que te agradecer a boa imagem que tens de mim- concluiu   sarcástico. Depois de uns momentos de silêncio acrescentou: 
-Bom, Sandra, deves estar muito cansada. Faz um chá e tenta dormir. Preciso pensar em tudo o que aconteceu hoje. Se não for antes, segunda-feira, conversamos.
Dirigiu-se à porta e disse ao ver que ela o seguia. 
-Não é preciso. Sei o caminho.
Saiu fechando a porta atrás de si.
Sandra, foi até à cozinha, acendeu o fogão e pôs a chaleira com água ao lume para o chá. Sentia-se arrasada. No dia seguinte era dia de visita ao pai. Estava sempre à espera do dia da visita e quando ele se aproximava ficava nervosa por não saber como ia encontrá-lo. Sentia-se impotente para o ajudar. Por outro lado, sentia como se lhe tivessem tirado um peso de cima. Não ter que fingir ser outra pessoa, não viver sempre no medo de ser descoberta, dava-lhe uma sensação de liberdade e bem-estar.
Mas ainda não sabia o que ia ser da sua vida agora. E se ele a despedisse? Havia tanta dificuldade em encontrar um bom emprego. Se fosse despedida,- e nem podia recriminá-lo se o fizesse, depois de ter dito que desconfiava dele e o espiara – como ia pagar as suas contas?  
Bebeu o chá, depois foi à casa de banho e tomou um duche. Precisava relaxar, ou não conseguiria dormir. Ao olhar-se ao espelho reparou nas manchas violáceas que tinha nos ombros, fruto da pressão das mãos de Gabriel. Procurou no armário uma bisnaga de Trombocid, e passou sobre as manchas. Vestiu o pijama, escovou os dentes e finalmente deitou-se.
O cansaço era tanto que não tardou a adormecer.


E bom ontem ultrapassamos os 27000 comentários.   Vocês são fantásticos.
Do coração. Muito obrigada


12.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE IX






Abriu a porta e desviou-se para lhe dar passagem. Ela acendeu a luz, e ele olhou com curiosidade para o apartamento. Sandra encaminhou-se para a sala. Depositou a mala numa cadeira.
- Sente-se. Posso oferecer-lhe um café?
- Agora não, obrigado. Não estamos numa visita social. Estou à espera do que tenhas para me dizer.
- É complicado. O meu nome é Sandra Martins Machado. O apelido Machado diz-lhe alguma coisa?
- Não. É um apelido vulgar. Porquê?
- Porque há pouco mais de três anos, o seu contabilista Joaquim Machado, foi acusado e condenado por ter feito um desfalque na sua empresa.
- Sim. E o que é que isso tem a ver contigo?
- Joaquim Machado é meu pai. Nunca fez qualquer desfalque e está preso. É inocente, e vocês acusaram-no.
Desatou a chorar. Ele levantou-se. Começava a perceber a dor e a raiva da jovem, mas ainda não entendia o que é que ela tinha ido fazer para a firma.
- Desculpa, não fomos nós que julgamos e condenamos o teu pai. Nós só demos parte do desfalque. O resto foi trabalho da polícia, e do tribunal.
- O meu pai está inocente. Era incapaz de roubar um cêntimo que fosse. E se houve desfalque alguém o fez. Não ele, que morre um pouco todos os dias, de vergonha.
- E se houve? O que queres dizer com isso? Julgas que não houve desvio daquela verba? Que nós fizemos uma participação falsa à polícia?
- Não. Acredito que tenha havido o desvio dessa verba. Mas qualquer outro o podia fazer. Até mesmo um dos dois sócios.
- Estás doida?
- Será? Porque é que o senhor comprou a parte do seu sócio, menos de um ano depois de meu pai ser preso?
- Boa! Agora entendi. Quer dizer que pensas que eu desfalquei a empresa, para obrigar o meu sócio a vender, a sua parte, e ficar com a totalidade da firma? Era isso que procuravas, infiltrando-te como minha secretária, e vestida daquele jeito ridículo? Uma prova para me acusares?
Tinha-se levantado, e passeava pela sala como leão enjaulado. Estava verdadeiramente zangado. Mais do que isso. Estava furioso.
 Ela começava a pensar que se excedera.
- Desculpe, - balbuciou. Mas o senhor pediu sinceridade. Por outro lado, já não sei o que fazer para provar a inocência do meu pai.
Ele parou. No meio da ira que o invadia, pensou vagamente que era extraordinária, a garra com que ela defendia o progenitor. Mais, pensou que gostaria que ela confiasse nele  com a mesma fé que depositava no pai.
-Suponho que não acreditarás se te disser que não tenho nada a ver com esse desvio, - disse com ironia.