21.7.17

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XI



-Porquê, doutora? Porque me trazes para tua casa, e me tratas como se fora alguém da tua família?
- Não sei, - disse sustentando-lhe o olhar. -Talvez porque me sinta responsável por ti, desde que te vi meio morto na estrada, ou porque a época é de fraternidade e me aflige, que não saibas quem és, nem para onde hás de ir. Ou porque sempre me senti, um pouco a Joana D'Arc, e nunca tive oportunidade de o demonstrar. Ou simplesmente,  porque gostaria que alguém me ajudasse se fosse comigo. Mas isso que importa? Tenho que ir lá acima ao quarto andar, buscar o meu filho, a festa do amigo já terá terminado. Depois acabo de preparar o jantar que na verdade já está feito, é só ligar o forno para o aquecer. Enquanto isso, podes ir para o teu quarto descansar, ou para a sala, tens lá vários livros, ou  se te apetecer, liga a Televisão.
Com os olhos brilhantes de emoção, ele beijou-lhes as mãos e disse:
-És uma mulher incrível, doutora. Oxalá a tua generosidade possa ser recompensada.
 Soltou-a e virou-se para a janela, para esconder dela o desespero que a sua situação lhe provocava.
- Não fiques assim. Tenta relaxar. Quanto mais te esforças, mais frustrado ficas. A tua RM não acusou nenhuma sequela que seja a causa da amnésia. Deves ter tido um choque grande e o teu subconsciente recusa-se a recordar. É como se ele receasse alguma coisa. Quando deixar de recear, recordarás tudo. Agora, vou buscar o Diogo. Deveríamos arranjar-te um nome. Não pudemos dizer-lhe que não te lembras dele, porque isso iria fazer uma grande confusão, na sua cabeça. Tens predileção por algum?
- Fernando – disse sem pensar, e acrescentou. Foi o primeiro que me ocorreu. Será que é o meu nome?
- Quem sabe? Pode ser. Até já – disse saindo e deixando-o a sós com os fantasmas  que o atormentavam.
Fernando, - vamos chamar-lhe assim- foi até à sala. Acendeu a luz, e dirigiu-se à estante que ocupava toda uma parede. Muitos livros relacionados com a medicina, diziam bem do interesse da dona da casa. Mas também havia muitos outros. Clássicos da literatura mundial, como Goethe, Balzac, Shakespeare, Dostoiévski, Homero, Dante, Camus, Victor Hugo, Sartre, Ionesco, Steinbeck, entre muitos outros. Mas também os de língua portuguesa, como Camões, Pessoa, Machado de Assis, Jorge Amado, Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, Virgílio Ferreira, entre um numeroso grupo de bons autores. Escolheu “O Náufrago” de Thomas Bernhard, porque no fundo era assim que ele se sentia. Um náufrago da própria vida.
Sentou-se no sofá e abriu o livro. Mas não teve tempo para iniciar a leitura, porque nesse momento, a porta abriu-se e Helena voltou com o filho.
  




20.7.17

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE X






Na rua o homem parou, piscou os olhos por causa da luz daquele bonito dia de sol, e respirou fundo. Depois retomou a marcha, seguindo Helena em direção ao carro. Quando o veiculo começou a rodar, ela comentou:
-Amanhã, vamos ao centro comercial. Precisa de comprar algumas roupas.
- Mas como? Não tenho dinheiro!
- Eu sei. Mas posso emprestar-lhe o suficiente para que compre o necessário. Pagar-me-á quando recuperar a sua vida.
- E se isso nunca acontecer doutora? Não posso viver às custas da sua generosidade.
- Não se preocupe. Quando menos esperar, recupera a memória. Foi pena que não se deixasse hipnotizar. Podia ser que o psiquiatra tivesse descoberto algo.
- Mas não foi culpa minha, juro.
- Chegamos, - disse ela estacionando o carro junto de um prédio de apartamentos. Moro no segundo andar. Vamos?
Acionou o mecanismo da chave para fechar o automóvel, ao mesmo tempo que se dirigia para a entrada do prédio seguida pelo homem. Se a porteira a visse, decerto ia estranhar. Morava ali há três anos, e nunca entrara ninguém na sua casa, a não ser a empregada, e os seus pais, quando vinham passar uns dias com ela. Não utilizaram o elevador. Ela nunca o usava, preferindo subir os dois lances de escadas, e naquele dia não foi diferente, até porque pensou, que depois de tantos dias, na cama, ele precisaria de exercício. Abriu a porta, acendeu a luz, pendurou a mala num cabide à entrada, e voltando-se para ele que se mantinha em silêncio, disse:
- Venha, vou mostrar-lhe a casa. Aqui é a sala, digamos de recreio. Aqui pode ler, ouvir música, ou ver TV. Aqui é a sala de refeições. É pouco utilizada, como vivo sozinha com o filho, comemos sempre na cozinha. É mais aconchegante. O quarto principal, o quarto do Diogo, e o quarto dos meus pais, que será o seu, enquanto aqui estiver. No armário, estão algumas roupas, para dormir confortável hoje. Espero ter acertado com o tamanho. Aqui  são as casas de banho. Esta é a que uso com o Diogo. 
A porta ao lado, é de outra casa de banho cuja diferença consiste, em que esta tem banheira, e a outra apenas duche. No resto são iguais. Poderá usá-la.
E finalmente a cozinha. 
Voltou-lhe as costas, mas ele pôs-lhe uma mão no ombro e forçou-a a voltar-se. Segurou as mãos dela entre as suas, e perguntou sem deixar de a fitar:



Este é o último post que eu publico. A partir de amanhã, já sairá um novo capitulo todos os dias automaticamente, até ao meu regresso. Espero que a história vos interesse até ao fim. Sempre que eu consiga maneira de chegar até vós visitar-vos-ei.  Fiquem bem

19.7.17

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE IX

               Mãe babada, mais uma vez utilizo uma
               foto do Pedro para ilustrar uma história.


Sandra, a colega com quem fizera amizade, naquelas três semanas, não estava, mas a enfermeira apresentou-lhe o doutor João, que fazia parte da equipa e que era quem naquele dia estava de serviço. Ele informou-a, que do ponto de vista físico, o paciente estava curado, mas que continuava sem memória. A polícia já tinha sido informada da sua alta naquele dia, e ela teria que assinar um termo de responsabilidade, e deixar a morada, a fim de ser contactada se houvesse alguma evolução nas investigações. Ele também já fora visitado pelo psiquiatra, que pensava talvez pudesse ajudar através da hipnoterapia. Mas o doente resistira à hipnose, e o clínico não pudera por em prática a sua teoria, já que como é sabido, em caso de rejeição é impossível conseguir obter o estado hipnótico. Terminada a conversa, e assinado o documento, despediu-se do médico e dirigiu-se à sala onde o homem se encontrava.
Ele estava sentado na cadeira, junto da cama. Devia rondar o metro e noventa, era bem constituído, tinha o cabelo negro húmido, como alguém que acabara de tomar banho, a barba escanhoada, e vestia umas calças de ganga pretas, e uma suéter vermelha. Ela que só o vira de noite, deitado na estrada, em hora de aflição, e depois nas visitas sempre deitado, não se tinha apercebido da figura imponente do homem, que se levantou e esboçou um sorriso, quando a viu entrar.  Sentiu que o seu coração disparava, enquanto a cabeça a avisava, de que se estava a meter, numa camisa-de-onze-varas, como costumava dizer a sua mãe.
-Boa tarde,- saudou estendendo-lhe a mão que ele apertou com calor. Pronto para a vida lá fora?
-Boa tarde, doutora. Disseram-me que tinha alta, e que a senhora me vinha buscar. Porquê? Estou tão mal que tenha que ser vigiado?- Perguntou com ansiedade.
-De modo nenhum. Apenas faltam poucos dias para o Natal, e como sei que não se lembra de onde mora, pensei convidá-lo a passar o Natal connosco. Apenas isso, mas se não o deseja, vou-me já embora.
- Nada disso doutora. Não me leve a mal. Toda esta situação, é tão nova para mim.
- Então, vamos? Deixei o meu filho numa festinha de anos em casa duns vizinhos, e não me posso demorar. Pelo caminho podemos conversar.
Ele apanhou o casaco, das costas da cadeira, e disse enquanto o vestia.
-A doutora manda.





18.7.17

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE VIII



Aquela semana, foi muito complicada para Helena. Desde logo porque não conseguia afastar da cabeça, o homem que socorrera, e que fisicamente melhorava de dia para dia, estando prestes a ter alta. Helena já tinha conversado com Sandra, a colega que chefiava a equipa de médicos que o tinha a seu cargo, e sabia que no final da semana lhe iam dar alta. Faltava uma semana para o Natal e por essa época todos os doentes que estejam em fase de recuperação, têm alta a fim de passarem a quadra com a família. É todos os anos assim. A equipa médica até tinha feito uma “vaquinha” para lhe comprarem alguma roupa, uma vez que aquela com que tinha entrado no hospital, estava imprestável e tinha sido incinerada. Também sabia que a polícia não descobrira nada sobre ele, que continuava com amnésia. Não conseguia deixar de pensar nele, o seu rosto povoava-lhe os sonhos. Tentava encontrar desculpa para o seu interesse nos sentimentos humanitários, que no fundo, talvez não  tivesse, se o paciente fosse outro, fosse mais velho, ou menos atraente. A verdade, é que tinha quase trinta e dois anos, estava no máximo da sua plenitude sexual e excetuando o caso breve com o pai do filho, não tinha tido outro relacionamento com homem algum. E o que estava a acontecer, é que se estava a apaixonar por aquele desconhecido misterioso..
Sabia que a polícia estava a tentar arranjar um sítio onde o acolher até ver se conseguiam descobrir a sua identidade, mas pretendia levá-lo para sua casa, pelo menos naquela quadra. Tinha dez dias de férias para desfrutar, a partir da próxima semana, esperava passá-los na aldeia com os pais, e podia perfeitamente levá-lo como se fosse um amigo. Pelo menos passaria o Natal em ambiente familiar, e depois se veria. Talvez até, quem sabe, ele recuperasse a memória, nesse espaço de tempo. De modo que estava resolvida a falar com a polícia e ficar responsável por ele. Não era uma decisão muito sensata, podia até ser perigosa, pensava.  É que ele tanto podia ser um cavalheiro como um psicopata, mas ela confiava nos seus instintos e eles diziam-lhe que não se tratava de um facínora. E demais se o fosse, a polícia não o teria já identificado? 
Preparou o quarto de hóspedes, já que ele teria alta no sábado e ela só seguia para a aldeia na segunda-feira, e depois conversou com o filho, para que o menino,  não estranhasse a situação. E assim naquela tarde de sábado, dirigiu-se ao hospital, a fim de o ver e convidá-lo a acompanhá-la.



Aviso aos leitores. 

Sexta-Feira vou de Férias.  Adiantarei um pouco esta história, hoje e amanhã, porque em Lagos não tenho internet, a não ser no Smartphone. A história ficará programada para sair um capitulo por dia .  Quando esta acabar, entrará automaticamente  "Dívida de jogo" da mesma maneira. Provavelmente só volto em Setembro. Entretanto sempre que der, tentarei visitar-vos.  




SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE VII




A colega despediu-se, depois de mais umas perguntas ao doente:
- Bom, Helena, tenho que ir. Conversamos amanhã.
- Amanhã estou de banco. Ligo-te, quando puder. Obrigada, por me teres avisado.
Helena puxou a cadeira para junto da cama e sentou-se:
- Fico feliz por ver que está em franca recuperação. Cheguei a temer que fosse demasiado tarde quando o encontrei.
- Já me contaram doutora. Sei que lhe devo a vida, e não tenho palavras para lhe agradecer. Foi muito corajosa.
- Não tem nada para agradecer, mas se o quiser fazer, agradeça-me pondo da sua parte todo o empenho numa rápida recuperação. E não me chame doutora. Guarde esse tratamento para a minha colega, que é a sua médica. Trate-me por Helena. Vou deixá-lo. Precisa descansar. Vou passando quando puder, para ver como vai. Sei que está a passar por uma experiência difícil, Tente não ficar desesperado, tenha a certeza de que a equipa médica que o acompanha, vai fazer tudo para o ajudar.
- É um desespero, não saber quem sou. Esforço-me por me recordar de alguma coisa e nada.
- Bom, - disse ela pondo-se de pé. – Tenho que ir, está quase na hora do jantar. Quer que lhe traga alguma coisa, quando voltar?
- Uma cabeça nova, - disse sorrindo pela primeira vez.
Helena, não pôde deixar de notar, como a expressão no rosto masculino, se suavizara com o sorriso. Estendeu-lhe a mão.
- Se isso fosse possível até eu quereria uma, - disse rindo.
Ele apertou-lhe a mão entre as suas, e disse com a voz enrouquecida.
- Obrigado. Nunca vou esquecer o que fez por mim, doutora
Helena não respondeu. Suavemente soltou a mão e virou costas, perplexa com os seus sentimentos. O que é que estava a acontecer com ela? Não podia estar a interessar-se por um desconhecido. Disse a si mesma que era apenas o interesse profissional dum médico pelo doente, e isso tranquilizou-a um pouco. Olhou o relógio. Tinha demorado mais do que queria, estava quase na hora de saída da empregada. Tinha que se apressar. Ainda tinha que passar pela pizaria, tinha prometido ao filho que levaria uma piza para o jantar. A rua fervilhava de gente aquela hora. As montras decoradas, mostravam que se estava quase no Natal e ela ainda não comprara os presentes. Tinha que o fazer no próximo fim de semana.




Parece que os leitores, estão tão às escuras como o sinistrado. Ninguém aventura um palpite?

17.7.17

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE VI






A vida foi retomando o seu ritmo normal. Helena andava muito cansada, o trabalho no hospital era cada dia, mais intenso, pelo que teve que pedir uma reunião com o diretor da clínica, e reduzir o seu trabalho para apenas duas horas, três vezes por semana. Com toda essa azáfama, quase tinha esquecido o sinistrado, quando a colega do outro hospital lhe telefonou a informar que o homem tinha saído recuperado a consciência. Ela  nunca mais voltara ao hospital desde aquela noite em que falara com a médica,  e lhe pedira para que a avisasse , quando ele saísse do do coma. Como naquele dia, não tinha consultas na clínica, decidiu que ia vê-lo quando terminasse o seu trabalho no hospital. Depois de a cumprimentar, a colega, disse-lhe:
-O nosso doente está finalmente livre de perigo. Mas está amnésico. Nem sequer se lembra do seu próprio nome.
- Às vezes acontece depois de um grave acidente. Mas deve ser transitório, não?
- Talvez. Fez hoje uma RM. Vamos esperar os resultados para despistar alguma lesão de maior gravidade a nível cerebral. Vamos vê-lo?
- Claro. E a polícia, não disse nada?
- Apenas que continua a não haver nenhuma queixa por desaparecimento. Esperavam que saísse do coma para o interrogar.
- E já o fizeram?
-Já. Mas devido à amnésia, não deu em nada. Fotografaram-no para verem se a foto dele faz parte dos ficheiros da polícia.
Tinham chegado junto do doente. Pela primeira vez Helena, via realmente o sinistrado. Não teria mais de trinta e cinco anos, moreno, embora agora estivesse bastante pálido, cabelos pretos, bem curtos, e ligeiramente ondulados, e uns profundos e desorientados olhos pretos. Os traços do seu rosto eram perfeitos, a testa alta e o queixo firme. O pijama meio desabotoado deixava ver um peito bem musculado.
- Como se sente? - Perguntou a médica
-Vazio, -respondeu esboçando uma careta que talvez pretendesse ser um sorriso.
- Apresento-lhe a doutora Helena Correia. Foi ela quem o encontrou meio morto na estrada e providenciou para que fosse rapidamente socorrido.
- Obrigada doutora. – Estendeu-lhe a mão, que ela apertou, reparando que era uma mão bem tratada.






Para dar um pouco de "pica" numa altura em que está quase tudo de férias, 
e sabemos  que este homem, está amnésico e não tem documentos , alguém arrisca um palpite? Quem será ele?  Donde será? E como veio aparecer quase morto  "as portas" de Lisboa? Será "recado" de algum gang?


SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE V







Chegou a casa já bastante tarde, cansada de carregar ao colo o filho adormecido. E no dia seguinte estava de banco, pelo que não se adivinhava um dia nada fácil. Acordou muito cedo, depois de uma noite de sobressalto em que dormiu pouco e mal.
A mãe telefonou logo pela manhã. Ela tinha ficado de ligar quando chegasse a casa, e com toda a confusão da viagem e no hospital, esquecera completamente, o que fez com que a mãe tivesse passado a noite insone com a preocupação.
Quando a empregada chegou, ela já tinha o filho levantado a tomar o pequeno-almoço, para ir para a creche.
O dia decorreu lento e atribulado, com três urgências. Quase ao fim do dia recebeu uma chamada para se apresentar na esquadra, a fim de assinar o boletim de ocorrência que o polícia em serviço no hospital fizera no dia anterior.
E ainda queria passar no outro hospital para ver o sinistrado, ou pelo menos saber como ele estava.
Teve que telefonar à empregada, a avisar que chegaria mais tarde, e pedir para ela ficar um pouco mais com o menino.
Na esquadra assinou o documento, e tentou saber alguma coisa mais sobre o acidente, mas segundo o agente a polícia estava a investigar, mas enquanto o homem não estivesse capaz de fazer declarações, era difícil saber o que se passara, já que no local não foram encontrados na estrada, nenhum sinal de acidente, nem nenhum veículo, e o sinistrado não tinha absolutamente nada nos bolsos. Era quase como se ele tivesse sido "despejado" naquele local, para morrer.
Depois foi ao hospital, falou com a doutora Sandra, a chefe da equipa que seguia o sinistrado,  soube que a cirurgia de remoção do baço, que lhe estava a provocar a hemorragia interna, correra bem, mas o doente era um poli-traumatizado, a nível das costelas, do rim, do fémur e da cabeça, e ainda estava em coma. 
Pediu à colega para a manter ao corrente do seu estado e a avisar quando ele recuperasse a consciência.
Tinha pensado ir vê-lo mas à última hora decidiu deixar para quando ele estivesse consciente. Já era tarde e a empregada devia estar desejando que ela chegasse.




16.7.17

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE IV








Após uma rápida observação, verificou que estava vivo, embora talvez não por muito tempo, pois além de poder ter alguma coisa partida, poderia ter uma hemorragia interna, e se assim fosse não teria muito tempo de vida. Presa de súbita urgência, ligou para o número das emergências. Identificou-se e deu as indicações sobre o acidente e as coordenadas  do local onde se encontrava. Depois levou o filho para o carro, ligou o motor e aproximou o carro do sinistrado, deixando os faróis acesos para que o iluminassem. Pegou na sua mala, e na echarpe que tinha no banco traseiro, e voltou para junto do homem. Com o tecido improvisou um colar que passou à volta da cervical do homem, despiu o casaco que colocou na estrada, e só então com extremo cuidado o virou. Viu-lhe o pulso. Muito fraco. Desapertou-lhe a camisa, e os seus dedos ágeis e treinados percorreram cada cm do tórax dele.  
Pegou no telemóvel e voltou a ligar para a emergência.
- Por favor, fala a doutora Helena Correia. Acabei de observar o sinistrado. Há rotura do baço, hemorragia interna e talvez costelas fraturadas. O pulso está muito fraco, e também está ferido na cabeça. É importante que avisem o hospital mais próximo para que preparem tudo para uma cirurgia de urgência, assim que a ambulância chegar. Não sei há quanto tempo se deu o acidente, pode não restar muito tempo para a cirurgia de extirpação do baço. A ambulância está a chegar, - disse ao vê-la aproximar-se a toda a velocidade.
- Vamos tratar já de avisar o hospital. A doutora não poderia seguir a ambulância até lá?
- Vou tentar, mas não poderei demorar, tenho comigo o meu filho de cinco anos, cheio de sono.
Os bombeiros chegaram e rápidos e cuidadosos, prepararam o homem para o transporte, arrancando de seguida rumo ao hospital, seguidos pelo carro da doutora.
Quando lá chegaram, já a equipa médica estava a postos para a cirurgia. Helena prestou todos os esclarecimentos relativos a como encontrou o sinistrado, que se verificou estar sem documentos, deu o seu nome e morada, bem como do hospital onde trabalhava, para a contatarem, caso fosse preciso. Porém, como pela urgência do momento não aguardaram pela chegada da polícia, ainda teve que aguardar que o polícia de serviço no hospital, registasse a ocorrência, e examinasse o seu carro, para verificar se havia indícios de ter sido ela a atropelar a vitima, e só depois foi autorizada a regressar a casa.


SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE III






Depois de hora e meia retida na estrada, Helena estava de novo a caminho da capital. Já era tarde e ficara  indecisa, se devia  ou não entrar na autoestrada, pois a viagem seria mais rápida. Porém chegaria sempre tarde, e como era  hora do jantar, decidiu continuar pela estrada nacional, e parar onde encontrasse um restaurante, junto à estrada, a fim de jantarem, coisa que viria a fazer, dois quilómetros mais à frente.
Depois do jantar, voltou à estrada, não sem antes verificar se o filho sentado atrás na sua cadeira tinha o cinto devidamente colocado.
Apesar de se estar nos primeiros dias de Dezembro, a noite estava estrelada, e fria. Estranhando o silêncio do menino , lançou-lhe um rápido olhar e verificou que tinha adormecido. Baixou um pouco o som do rádio e concentrou-se na condução. Não gostava de o fazer de noite, mas os dias naquela altura eram tão pequenos. Felizmente já não faltavam muito para chegar a casa. Devia estar a uns dez, doze quilómetros de Lisboa, encontrava-se numa longa reta, e há quase vinte minutos que não passava um carro por ela.
De súbito, avistou qualquer coisa na berma da estrada, lá mais  à frente, e pensando nalgum animal que de repente poderia atravessar a estrada, reduziu a velocidade. Porém à medida que se aproximava  verificou  que se tratava de um corpo humano. Mau, um corpo humano deitado na berma da estrada, naquele local solitário, sem nenhum carro ou velocípede  à vista, podia ser uma armadilha. Como médica estava habituada a tomar decisões em fracções de segundos. A estrada estava aparentemente deserta, mas as três árvores e o  tufo de vegetação imediatamente antes do corpo,  podiam esconder alguns meliantes. 
Embora a sua razão lhe gritasse que seria perigoso parar, e lhe aconselhasse prudência, o seu instinto também lhe dizia que podia ser alguém gravemente ferido, e ela era acima de tudo, médica.  Lançou um olhar inquieto ao filho que continuava adormecido e travou um pouco antes de chegar junto ao vulto. Vestiu o colete reflector, e saiu do carro. A medo perscrutou os arredores. Não se via nada, estava tudo silencioso. Receosa abriu a porta traseira e pegou no filho adormecido ao colo, pensando, que podia ser um assalto para lhe roubarem o carro, e não podia correr o risco de o levarem com o filho lá dentro. Devagar aproximou-se do vulto caído na berma da estrada. Parou por momentos e escutou. Não se via nada nem ninguém e o vulto não se mexeu. Convencida de que não se tratava de nenhum estratagema de assalto, pousou a criança no chão e debruçou-se sobre o vulto que jazia de bruços na berma da estrada.


15.7.17

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE II






E passaram quase seis anos. Helena, viveu com os pais, até que o filho fez dois anos, trabalhando num posto médico na aldeia vizinha. Depois achando que o filho estava suficientemente crescido para entrar numa creche, começou a enviar currículos para hospitais e clínicas da capital. 
Pensava que tinha chegado a hora de dar um pulo na profissão, quiçá concretizar o sonho da sua vida. Três meses depois, tinha uma proposta de trabalho muito interessante numa clínica privada, para pequenas cirurgias de ambulatório. Ela gostaria mais de um hospital estatal, mas a proposta era irrecusável, o horário deixava-lhe muito tempo livre, já que estava ocupada apenas da parte da manhã, e quem sabe mais tarde conseguia entrar para um hospital. Afinal ela tinha conhecimento de que havia tantos médicos que trabalhavam em hospitais e clínicas, ou consultórios particulares em simultâneo. Assim mudou-se de armas e bagagens para a capital, alugou um pequeno apartamento, arranjou uma creche para o filho e iniciou uma nova vida.
Com a falta de médicos no país, e com o seu curriculum, não foi difícil conseguir trabalho num dos hospitais da capital. Foram apenas seis meses de espera. Depois teve que conciliar o trabalho no hospital, com o da clínica,reduzindo as horas na Clínica e passando-as para o final da tarde, depois da saída do hospital. Teve que arranjar uma empregada de confiança para ir buscar Diogo à creche, e ficar com ele até à hora em que ela chegava. Felizmente que a lei lhe permitia não fazer turnos, por ter um filho com menos de doze anos a seu cargo.
O seu filho completara cinco anos, no próximo ano, entraria para a escola oficial. Ela estava feliz com a sua profissão. Estava no chamado hospital dia, fazia apenas as pequenas cirurgias que podiam ser feitas em ambulatório, mas ainda assim era melhor que o anterior trabalho de médica de família no centro da aldeia. Por aqueles dias tinha ido a Londres assistir a um congresso. Antes disso foi à terra levar o filho, que deixou com os pais. Podia deixá-lo com a empregada, ela era competente e adorava o menino como se ele fosse seu próprio neto. Mas ela tinha a certeza, de que os pais teriam ficado aborrecidos se o fizesse. Era essa a razão, porque ela se encontrava naquela tarde de domingo, a despedir-se dos progenitores, para empreender a viagem de regresso a casa.
Uma hora depois o carro avariou, e Helena viu-se obrigada a telefonar para a Assistência em viagem e aguardar que mandassem alguém para solucionar o caso.

14.7.17

CHEGOU!


Gente , pela primeira vez na vida ganhei um prémio num sorteio. Pois é, a Susana, do blogue  CANTINHO DA GAIATA, para homenagear a mãe, que esteve muito doente, e que graças a Deus está melhor,  que faz lindas bonequinhas em croché, resolveu sortear entre os seus leitores três dessas bonequinhas. E eu fui uma das sorteadas.  Acabei de receber, pelo correio. Mais, junto com a bonequinha, a Susana teve a gentileza de enviar um doce de figo, típico do Algarve, um saquinho de cheiro para perfumar gavetas, e uma bela mensagem. Fiquei muito feliz .Muito obrigada amiga.





SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE I




O primeiro domingo de Dezembro, nascera frio e seco. Na aldeia, a doutora Helena Correia, preparava as suas malas para o regresso à cidade com o filho. Tinha regressado de um congresso em Inglaterra na sexta-feira, e depois de ter tomado um duche, trocou de roupa, nem desfez a mala, mas colocou algumas peças de roupa num pequeno saco de viagem, pegou no carro e seguiu para a aldeia, a fim de ir buscar o filho que tinha deixado com os avós, antes de partir de viagem. Não parou pelo caminho, nem sequer para comer, cheia de saudades do pequeno Diogo, um garoto de cinco anos, que ela amava mais do que tudo na vida.
Helena, era filha única, de um casal de agricultores, não muito abastados, mas com o poder económico suficiente para dar à sua filha a realização do seu sonho de sempre. Ser médica-cirurgiã. Nunca cultivou grandes amizades, era uma aluna exemplar, apenas interessada em acabar os estudos, com o mínimo de gastos possíveis para os seus pais. Todo o tempo que os estudos, lhe deixavam livre, ela empregava-os no hospital, vendo doentes, assistindo a cirurgias, ou mesmo dando assistência a cirurgiões sempre que eles lho permitiam. Sabia que não era fácil, ela bem via, o estado de exaustão a que por vezes alguns cirurgiões chegavam, mas a sua força de vontade era de ferro, e a sua coragem não tinha limites. Terminado o curso, teve oportunidade de ir trabalhar para um hospital londrino e aí completou a sua especialização na área que sempre a apaixonara. Regressou a Portugal, com vinte e seis anos, virgem de todas as emoções amorosas, pelas quais nunca se interessara. Por essa altura, a mãe fora diagnosticada com um cancro na mama, e Helena resolveu ficar algum tempo sem começar a exercer, para ajudar a mãe naqueles tempos difíceis. Foi nesse interregno que se apaixonou, pelo psicólogo, a que levou a mãe, que se sentia arrasada e sem força de vontade de viver, depois da mastectomia.
Para Helena, que nunca se tinha apaixonado,
nada sabia dos prazeres do sexo, a relação era séria. Para Hugo, um trintão, habituado a saltar de cama em cama, não passou de uma aventura. Descobri-lo foi um trauma para ela, mas habituada a lidar com o sofrimento, não se deixou abater, e nem sequer se preocupou em procurá-lo quando descobriu que estava grávida.
O erro fora seu, a responsabilidade pelas consequências eram suas, foi o que disse aos pais, quando eles a aconselharam a procurar Hugo, e a contar-lhe que estava à espera de um filho. Conhecedores do temperamento da filha, limitaram-se a apoiá-la.
Por essa altura, Helena concorreu a um lugar num posto médico estatal. Ser médica de família, era por de lado o seu sonho de chegar a ser uma grande cirurgiã, mas ela sabia bem que ele não era compatível com a sua situação actual.


13.7.17

CONVERSANDO COM O LEITOR



A história que andaram a ler, é a história de Rosa, uma mulher do povo, no século passado. Mas é também através dela, das suas vicissitudes, a história de vida em Portugal antes do 25 de Abril, para os mais desprotegidos. O livro foi lançado em Fevereiro de 2016, e esgotou no final de Março do mesmo ano. Parece maior do que a história, porque foi publicado em Espanha, com a ajuda de um grande amigo, Joaquin Duarte do blogue Amigos de Portugal, que com seus alunos de Cultura Portuguesa, estudaram e traduziram a história para Castelhano, pelo que o livro é uma edição bilingue. A capa foi desenhada pelo Joaquim, e é a preto e branco, porque foi assim toda a vida de Rosa. 
Inicialmente a história foi publicada no Sexta, mas quando decidi publicar em livro, apaguei-a. Voltei a publicar agora, porque muitos amigos e especialmente colegas da UTIB , tinham pena de não a poderem ler.  
Espero que tenham gostado.
E estou confiante de que lá para o Natal possa sair o meu segundo livro. Maria Paula. Do mesmo modo e com a ajuda do Joaquin e dos  seus alunos.
E com Rosa , o blogue ultrapassou os 26.000 comentários.. Obrigada a todos.



E como Rei morto, Rei posto, tenho três histórias novas, prontas a entrar. Entrará primeiro aquela que tiver mais votos.

À Média Luz  3
Divida de Jogo  4
Sinfonia da Memória.   7

Qual delas vos despertou mais curiosidade?

12.7.17

ROSA - FINAL

Foto de um grupo de retornados. Em 74, em poucos meses, meio milhão de portugueses regressaram das colónias. Chegavam de barco ou de avião, na sua maioria de "mãos vazias". Fugiam da guerra deixando para trás tudo o que tinham. Esta foto não é minha, (até porque nessa altura eu estava em Luanda) Foi retirada da Internet 

                                       XVI 

Para Rosa tudo era novo e diferente, ela não entendia muito bem o que se passava no País mas o que notava é que o povo estava mais alegre, mais feliz
Por outro lado, João recuperara o antigo emprego, o filho conseguira trabalho na Siderurgia Nacional, a filha mais nova fora trabalhar para a Timex, até o filho doente, estava melhor agora, graças a uma "bomba" que o médico já tinha receitado à muito, mas que ela nunca conseguira dinheiro para comprar. A sua vida estava muito melhor, ela podia enfim descansar um pouco, deixando o trabalho a dias e ficando em casa a cuidar do marido e dos filhos solteiros. Podia também cuidar dos netos, deixando as filhas mais descansadas e mais libertas de despesas. Porém, sobre ela pairava, como uma sombra, o medo pelo filho ainda lá longe, em Angola. Principalmente porque não havendo a PIDE, nem censura, tudo o que se passava em África chegava a Portugal. Rosa sabia que o governo, estava a negociar a independência, mas todos os dias chegavam a Portugal “os retornados” que falavam do medo que sentiam, da guerrilha entre os movimentos de independência, e alguns residentes pró colonialistas.  Falava-se de mortes, do recolher obrigatório, da incapacidade dos militares impedirem os indígenas que os saqueavam. E o seu filho continuava lá em comissão. Por outro lado, os políticos pareciam não se entender, os governos provisórios sucediam-se, e Rosa tinha muito medo que tudo voltasse ao mesmo, ou como diziam alguns, que a seguir à ditadura fascista, se seguiria uma ditadura comunista. O marido, dizia-lhe que isso sim seria um sonho, mas Rosa, que era uma mulher sem instrução, e tudo o que aprendera na vida, ficara-lhe  gravado na memória pelo sofrimento, achava que ditadura nunca seria coisa boa, fosse ela fascista ou comunista. E lembrava-se do que a avó sempre dizia quando ela era pequena e nem bem sabia o sentido das palavras. “Atrás de mim virá, quem bom me fará” Tinha medo. Muito medo de ainda vir a achar que os anos para trás, é que tinham sido bons. Naquele verão, mais de um ano após a revolução, o país parecia caminhar para uma guerra civil, e ela tinha medo do que o futuro lhe podia ainda reservar.  Medo que só perdeu, quando em Novembro de 75, pode enfim abraçar o filho que regressara são e salvo, após a Independência de Angola. E quase no final desse mesmo mês,  a viragem histórica do país, que afastou o espectro da guerra civil.
Agora sim, Rosa era uma mulher feliz.

                                         
 Fim

Maria Elvira Carvalho


11.7.17

ROSA - PARTE XV




Naquela manhã do dia 25 de Abril de 74, Rosa olhava-se no espelho e não se reconhecia. Apesar de não ter ainda cinquenta anos, Rosa estava cada dia mais velha, a face enrugada, os cabelos embranquecidos, o corpo magro e alquebrado, resultado de ser toda a vida, saco de pancada da própria vida. Pensava que já não tinha forças para se aguentar muito mais tempo. A sua família tinha-se desagregado.
Do marido, não sabia há muito, talvez estivesse preso, ou, quem sabe, tivesse morrido em qualquer prisão. As filhas casaram e embora não vivessem longe, estavam cada dia mais desligadas da casa materna, divididas entre o trabalho, o cuidarem da casa e dos filhos.
Dos dois rapazes mais novos, um conseguiu realizar o sonho de ser fuzileiro e encontrava-se num destacamento no Lungué-Bungo, no leste de Angola, enchendo de saudade e preocupação o seu coração de mãe. O outro, que era contra a guerra, fugira de salto para a França. Restava-lhe em casa um filho, cada dia mais doente, e uma filha adolescente.
Sacudiu a cabeça, como se quisesse abandonar todos os seus pesares, e dirigiu-se a casa do Sr. Doutor, onde ultimamente trabalhava a dias, sem sequer sonhar que no seu País estalara uma revolução que ia mudar toda a sua vida. Ela não sabia, mas a sua família não era muito diferente da maioria das famílias portuguesas pois, nessa altura, o País via-se sangrado da sua juventude. Uns partiam para a guerra do Ultramar, sem  nunca saber se voltavam, ou ficavam por lá, vítimas de uma mina ou de alguma bala emboscada. Outros fugiam para não serem obrigados a partir para uma guerra que não queriam nem entendiam.
Foi com surpresa e medo que Rosa ouviu da boca da patroa, a notícia da Revolução. Medo porque a "doutora"- era assim que ela gostava de ser tratada, embora o médico fosse o marido - lhe deu a entender que a revolução era muito má para o País e para eles, patrões, que talvez não pudessem continuar a dar-lhe trabalho. Rosa ficou muito preocupada. Se ficasse sem trabalho, como ia pôr comida na mesa? Mas quando chegou a casa, o filho explicou-lhe o que significava a revolução de uma maneira diferente. Falou-lhe do fim da guerra colonial, da abertura das prisões, do fim da PIDE, e do sonho dum País mais igualitário. E o seu coração sofrido encheu-se de esperança.
Dois dias mais tarde, quando Rosa chegou a casa, no fim de mais um dia de trabalho, teve uma grande surpresa ao encontrar o seu João. Muito magro, o cabelo todo branco e o ar macilento, em nada se parecia com o homem com quem casara. Apenas o brilho nos olhos encovados, lhe lembrava o João de antigamente. Apesar da alegria do reencontro, Rosa estava preocupada com a saúde do marido. E tinha razão, porque se ele recuperava aos poucos das mazelas físicas,  as psicológicas continuariam a persegui-lo durante muitos anos.
Dias depois, Rosa e João comemoravam pela primeira vez na sua vida o 1º de Maio em liberdade. E dois meses depois, podiam abraçar o filho António, que regressara da França, ao saber que o novo governo estava a negociar a independência das colónias e que, por isso, não teria que ir para a guerra.


Continua

ROSA - PARTE XIV


Quando em 1969, a filha mais velha da Rosa se casou, ela já não sabia do marido há largos meses.
Mergulhado nos ideais comunistas, João fora-se embrenhando na política e tornando-se um membro muito ativo no partido. A política é uma amante muito ciosa dos seus afetos e não tem contemplações com outros amores, especialmente em regimes fascistas e repressivos. Assim, aos poucos foi-se afastando cada vez mais da família. No começo, ele conseguia conjugar o seu trabalho, a vida familiar e as obrigações do partido sem levantar grandes suspeitas. Mas à medida que se foi tornando mais influente dentro do partido, isso tornou-se praticamente impossível. E quando, após uma denúncia, a maior parte dos seus camaradas foram surpreendidos e presos, João, que só não fora à reunião porque nesse dia entrara às dezasseis horas no trabalho e só saiu à meia-noite, pensou que a sua prisão estaria por horas. Em parte por causa da família, e em parte porque achava que seria mais útil ao partido cá fora do que preso, fugiu nessa mesma noite. Mais uma vez, Rosa ficava numa situação precária, com três crianças e um adolescente frágil e doente para cuidar e alimentar. Valeram-lhe as duas filhas mais velhas e algumas vizinhas. Estas ajudavam não só com alguma comida como também arranjando-lhe mais horas de trabalho. De vez em quando, chegava uma carta com dinheiro. Não muito, mas era uma ajuda. Embora as cartas não trouxessem remetente, Rosa sabia que eram do marido. A primeira carta chegou com carimbo de Beja, a segunda de Lisboa, a terceira de Faro. Cada uma de um sítio diferente. Ela não podia saber que a carta que recebia viajava sempre com algum camarada para uma terra distante e só lá era metida no correio. Mas este era um estratagema que eles usavam para despistar a PIDE. Agora, a filha mais velha ia casar. Rafael era um excelente rapaz, muito trabalhador. Filho único, de mãe viúva, conseguiu livrar-se da ida para o Ultramar, por ser dado como amparo de mãe.
Rosa sentia uma grande tristeza por não ser o marido a levar a filha ao altar; e não tê-lo a seu lado naquele dia tão importante das suas vidas. Afinal, a noiva era a sua menina. Tinha medo que ele estivesse preso. Há vários meses que, não recebia nenhuma carta. Falava-se em sussurro que nas últimas semanas tinham sido efetuadas muitas prisões. De vez em quando, desaparecia um vizinho. No Barreiro, havia muitas mulheres como ela. Viúvas da política. Algumas eram viúvas de facto pois os seus maridos foram torturados até à morte. Outras eram viúvas de maridos vivos, pois que estes estavam presos e muitas vezes nem a família sabia onde, ou ainda, andavam fugidos por terras estranhas.

Continua


Nota: O Barreiro foi uma terra muito martirizada pela PIDE.
Quase meio milhar de homens foi preso, sem cometer outro crime, que não fosse reclamar da vida de miséria que tinha. Claro que entre eles havia membros do partido comunista que lutava na sombra contra a politica fascista do regime. Mas a grande maioria, apenas queria uma vida melhor e nem sabiam o que era comunismo, quanto mais pertencer ao partido. Muitos deles não resistiram às sessões de tortura.

10.7.17

ROSA - PARTE XIII




                                          Foto DAQUI


Quando Rosa saiu do hospital, o padre que a tinha casado, arranjou-lhes um dos oito fogos, que ele próprio mandara construir para alguns dos seus paroquianos, que viviam em condições miseráveis. A casa ficava na vila, longe portanto da Seca, mas Rosa achou que lhes tinha saído a sorte grande. A casa, composta por uma boa cozinha, casa de banho e  três quartos, com água, luz e chão de tacos, pareceu-lhe um palácio. A vida do casal começava a melhorar. A filha mais velha foi servir para Cascais e só vinha a casa uma vez por mês. A segunda também foi servir para casa dum Sr. Doutor, lá mesmo no Barreiro. Dos três mais velhos, ficava em casa o rapaz que era muito frágil e que tinha sempre “uma ninhada de gatos no peito”. Ali na vila, Rosa arranjou algumas senhoras que lhe davam umas horas de trabalho para limpezas, ou passar a ferro e a vida parecia começar a equilibrar-se. Mas… foi nessa altura que João mudou. Andava macambúzio, perdera parte da sua alegria, olhava à volta com desconfiança e, de vez em quando, saía à noite. Às vezes, vinha cedo mas outras, só voltava de madrugada. Rosa começou a pensar que ele tinha arranjado uma amante.
Sentia que o chão lhe fugia debaixo dos pés e um dia fez-lhe a pergunta direta.
João irritou-se. Que ela estava doida, onde teria ido buscar essa ideia. Mas Rosa não ficou convencida. E numa noite, em que o marido voltou a sair, ela foi atrás dele. E viu quando ele se encontrou com mais dois e como andavam 
em silêncio, acautelando-se nas sombras. E viu quando um quarto homem chegou com uma pasta, da qual tirou uns papéis que distribuiu em silêncio. Escondida, viu como os homens espalhavam alguns papéis, protegendo-se sempre no escuro e sem trocarem uma palavra. Assustada, voltou para casa e meteu-se na cama. A tremer, esperou a chegada do marido. Ela já tinha visto alguns papéis daqueles no chão. Tentara até apanhar um, mas a vizinha impediu-a. Disse-lhe que eram papéis contra o governo, que os comunistas espalharam, e que se ela fosse apanhada com algum, seria considerada comunista e seria presa. O João podia ser preso? A frase martelava-lhe a cabeça e dava-lhe suores frios.
Quando João chegou a casa, achou a mulher estranha.
- O que tens, mulher? Aconteceu alguma coisa?
Ela respondeu com outra pergunta:
- Tu és comunista, João?
- Cala-te, - disse perdendo a cor. Nem em pensamento, ouviste, nem em pensamento, repitas isso.
- Então é verdade, - disse ela com a voz embargada pelas lágrimas. Mas porquê? Já passamos tanta fome, tanta miséria e agora que a nossa vida está bem melhor, é que queres desgraçar-nos.
-Tu não compreendes mulher. É nosso dever tentar que os nossos filhos não passem o que nós passamos.
- Mas… e se eles te prendem João?
 - Não te preocupes, nós temos cuidado. É verdade que há muitos “bufos”, mas também há muita gente do nosso lado.
Mas, desde aquela noite, e durante vários anos, Rosa nunca mais teve um minuto de sossego.


Continua


ROSA - PARTE XII



                     O posto médico da Seca do Bacalhau
                            A foto é minha.

De Setembro a Março, Rosa trabalhava na Seca do Bacalhau. Trabalho duro e não muito certo pois, quando o Inverno era rigoroso e não se podia pôr o bacalhau na rua para secar, não havia trabalho. Às vezes, ficava-se uma semana inteira sem ganhar um tostão. Mas, ainda assim, vivia-se melhor que no Verão, pois sempre eram dois a ganhar. E depois era a oportunidade dela ver gente da sua aldeia e de outras aldeias vizinhas, de rir, cantar e esquecer um pouco a miséria que tinha em casa. Ali, naquele mundo maioritariamente feminino, não havia segredos. Todas sabiam quando alguma levava “porrada” do marido, quando não tinham que comer ou quando punham “um filho a estudar”.a)  Muitas vezes, sem dinheiro para procurarem uma parteira, faziam – no elas próprias sem quaisquer condições. Por causa disso, não raras vezes, alguma morria com uma infecção. Algumas, trabalhavam na seca com os maridos, outras, os maridos trabalhavam nas fábricas de cortiça, ou na C.U.F. mas todas viviam irmanadas na mesma vida difícil e contudo aparentavam uma alegria difícil de explicar, pois passavam muitas horas de trabalho sempre cantando, ou contando anedotas como se o trabalho fosse leve e a vida lhes sorrisse lá fora. Então quando tocava a lavar o bacalhau nas grandes tinas de água, que levavam seis mulheres de cada lado, era ouvi-las cantar o tempo todo, ora como um só coro de muitas vozes, ora desafiando-se umas às outras em quadras repentistas que pareciam não acabar nunca. Algumas faziam graça com a própria fome, como a Rosalina, que enfiava um dedo no meio do pão e comia à roda do dedo, dizendo que comia pão com chouriço, ou a Virgínia que dizia estar a almoçar um cozido à portuguesa, enquanto emborcava uma sopa deslavada.
Por esses dias, a Ti Urbana perguntou-lhe:
-Ó Rosa, tu já estás prenha outra vez, mulher?
- Não! - A resposta foi quase um grito. Pela sua saúde, não me diga isso, que me desgraça.
- Eu não te digo mas que estás é verdade. Basta olhar as tuas pernas. Ó mulher mas tu não tens juízo?
- Ai Ti ‘Urbana, se for verdade, tenho que dar um jeito. Não quero ter mais filhos. O meu Alberto ainda não fez os sete meses.
- Vai ao posto médico. Mas olha que eu nestas coisas nunca me engano.
Na Seca, havia um posto médico, com um enfermeiro, e às quintas-feiras ia lá um médico.
Nessa semana, Rosa foi ao médico que confirmou as palavras da Ti' Urbana .  Mais uma vez estava grávida!
Pediu ajuda a algumas mulheres mais velhas. Nunca fizera um aborto mas, desta vez, tinha que ser. Estava decidida a não ter mais filhos. Mas não tinha dinheiro para ir à parteira. A Adélia ensinou-lhe a fazer escalda-pés com grãos de mostarda. Fez durante três dias mas não resultou. Depois foi fazendo tudo o que as outras lhe diziam já ter feito até terminar por picar o útero com um talo de aipo até sangrar. "Resulta sempre", tinham-lhe dito. E resultou. Numa grande hemorragia, seguida de infecção, que a ia matando. Acabou numa sala de cirurgia, no hospital de Almada, onde sofreu uma histerectomia total.  "Caparam-na" como ela costumava dizer. E nunca mais engravidou.


Continua

a) pôr um filho a estudar, era na linguagem das mulheres da Seca, a designação para aborto, que nessa época em Portugal,  era ilegal e podia até dar cadeia.



9.7.17

ROSA - PARTE XI




                                       foto da net


No ano seguinte, Rosa dava à luz uma menina e no outro, mais uma menina e no outro ainda, um rapaz.
Três filhos em três anos. João trabalhava agora na C.U.F., ganhava um pouco melhor mas, ainda assim, pouquíssimo para as necessidades de cinco bocas. A casa também não tinha condições. No quarto, além da cama de casal e do armário, só cabia o berço. As duas crianças mais velhinhas dormiam no chão da cozinha, numa cama feita com duas mantas de trapos.
Quando vagou uma casa de dois quartos no pátio, mudaram-se para lá. Mas Rosa já estava outra vez grávida. Nessa altura não havia pílula, só as “camisinhas”. Mas João não as queria usar. Quando os amigos, ou vizinhos comentavam da pobre Rosa que sofria de “prenhez cronica” ele dizia a rir:
-E o que é que eu hei-de fazer? O raio da mulher basta olhar para mim quando estou a mudar de roupa para ficar logo “embuchada”.
Rosa adorava o marido. Nunca lhe batera, o que os maridos de algumas vizinhas faziam com frequência, nunca a ofendera e, às vezes, até era carinhoso com ela. Era bom pai, muito trabalhador, não se metia nos copos como a maioria dos homens do pátio. O pior, era não querer usar a malfadada “camisinha”. Cada vez que ela lhe pedia, respondia sempre que "os rebuçados embrulhados não sabem a nada". E Rosa começava a sentir-se exausta.
Felizmente para ela, o bebé não foi além do terceiro mês, tendo sofrido um aborto espontâneo. O pior foi que pelo Natal já estava outra vez grávida. Rosa tinha que aproveitar o trabalho na Seca do Bacalhau para ajudar a despesa da casa. Levantava as crianças logo de manhãzinha e lá ia ela para o trabalho, com um filho no bucho, os dois mais pequenos sentados cada um do seu lado sobre a anca e a maiorzinha agarrada às saias. Na Seca, estendia o xaile dentro dum carro de mão e lá metia os bebés guardados pela pequenita enquanto ela trabalhava. Tempo depois, voltou a abortar e deu Graças a Deus por isso.
Depois, vieram mais três em quarenta meses. Rosa ainda não fizera vinte e oito anos, e já tivera seis filhos e dois abortos. As duas filhas mais velhas já estavam na escola. Rosa tinha vergonha de mandar as crianças, para a escola, com os sapatos rotos mas não podia comprar outros. De roupa, as duas mais velhas estavam servidas. Havia na Seca uma senhora, esposa do chefe de escritório, que tinha duas filhas, um pouco mais velhas que as suas e dava-lhes a roupa que já não servia às meninas. Coisas caras, de bons tecidos, que mesmo depois de deixarem de servir às filhas, ela guardava religiosamente para a mais pequenina. Para os rapazinhos é que era pior. Mas a necessidade aguça o engenho e Rosa ia aproveitando das suas roupas e do marido, que já não davam para consertar, alguns bocados bons que dava para uns calções ou um bibe para eles. De quando em vez, Amália, a cunhada, lá arranjava maneira de lhe dar um quilo de arroz, umas batatas ou meio litro de azeite. Não muito que também ela vivia com muitas dificuldades. O problema dos pobres é que o que podem partilhar é sempre muito menos do que manda o seu desejo de ajudar.
À noite, quando regressava do trabalho, Rosa recolhia do pessoal que vivia na Seca e cuja cozinha era composta por enormes fogões a lenha, o carvão que os ia aquecer na braseira.
Mas sentia-se muito cansada. Sentia-se velha. A vida estava cada dia mais difícil. O ordenado do marido não chegava para nada. O dono da mercearia fiava-lhe o avio durante a semana. Quando no sábado o marido recebia a semanada, passava por lá para acertar contas e vinha logo sem dinheiro para casa.

Continua



8.7.17

ROSA - PARTE X


Igreja de Santa Cruz no Barreiro. A estátua em frente é do Padre Abílio. Homenagem do povo a quem ele amou, e protegeu, construindo casas  e dando comida e roupas aos mais necessitados.
Meus pais casaram nesta mesma igreja em 1946 ano em que nesta história se casou a Rosa. Na foto do casamento deles me inspirei para descrever o vestido de noiva da Rosa. Podem ver a foto no fim do post. 
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                                                  X 


No Domingo, depois da missa, falaram com o padre para marcar o casamento. Naquela época, no Barreiro, era o Padre Abílio que estava na Igreja de Sta. Cruz onde eles acabaram por casar.
Este, depois de ter ouvido a confissão dos dois, fez questão de tratar de tudo rapidamente e sem qualquer custo. Casaram três semanas depois, o tempo necessário para os proclamas na terra dos noivos.
João tinha alugado uma casita num pátio perto da entrada da Seca. Era pequena, apenas um quarto e uma cozinha, uma pequena arrecadação e um galinheiro nas traseiras. Não tinha luz elétrica, nem água canalizada. Mas, no centro do pátio, havia um poço com uma espécie de tripé por cima, com uma roldana, onde passava uma corda que tinha numa das pontas um balde. Era desse modo que eles se abasteciam de água. Não tinha casa de banho. As necessidades faziam numa espécie de pote em argila, que era despejada todas as manhãs na “pipa”. A “pipa” era uma camioneta cisterna, propriedade da Câmara, que todas as manhãs percorria os pátios para recolher os detritos. Num canto do pátio, havia um pequeno cubículo onde se improvisara um duche comunitário, já que servia para todos os moradores do mesmo, que era composto por oito casas. O duche era a ponta de um regador, presa num tubo que saia de um bidão que alguém instalara lá em cima no telhado. Estava sempre cheio de água. Cada vez que alguém tomava banho, quando acabava, ia ao poço buscar água para voltar a encher o bidão. De Verão, o bidão apanhava sol todo o dia e o banho era quente. De Inverno, a água gelava e os moradores tomavam banho num alguidar grande de zinco, com água aquecida nos fogões a lenha ou petróleo que cada um tinha em casa. Naquelas três semanas, até ao casamento, compraram uma cama, uma mesa e dois bancos. A madrinha de casamento, deu-lhes dois lençóis e o padrinho, um fogão a petróleo para fazer a comida. A cunhada deu-lhe meia dúzia de pratos e dos futuros vizinhos recebeu um tacho, uma panela, uma sertã, um candeeiro a petróleo e uma manta de trapos.
 Rosa fora trabalhar para a Seca do Bacalhau e lá encontrou gente da sua aldeia e de certa maneira sentiu-se mais segura. Era gente que trabalhava muito, ganhava pouco e ainda tinha que poupar para a viagem de regresso à aldeia, quando a safra acabava, e também para os meses que ficavam lá na aldeia, sem saber onde arranjar dinheiro para comer. Mesmo assim, juntaram-se e compraram o vestido de noiva da Rosa. Era uma saia azul e um casaquinho da mesma cor e uma blusa branca. A cunhada deu-lhe os sapatos. Não eram novos, tinha sido a madrinha dela que lhos dera no casamento. Mas como estavam apertados só os usara nesse dia. Eram pretos, com um vivo largo branco a toda a volta.
Quando no dia do casamento, se viu ao espelho, Rosa achou-se uma rainha. E lá foi para a igreja, na carroça do ti’ Abel com o futuro marido, porque essa história do noivo não ver a noiva antes do casamento, não era para gente pobre. Pelo menos nessa época.

Continua






Foto de casamento de meus pais. Quem me segue há muito tempo conhece-os bem. A Gravelina e o Manel da Lenha, cuja história já aqui contei.