4.7.17

ROSA - PARTE V


Dois dias depois, Rosa estava na cidade grande. Quase sem dinheiro, o ourives dissera que os brincos não valiam grande coisa, e pagou por eles tão pouco que quase nada sobrara depois de comprar o bilhete para a capital.
A cidade era enorme e ela não sabia para onde ir nem o que fazer. Caminhou por uma rua, tão grande que era maior que a sua aldeia, batendo a todas as portas, pedindo trabalho. Mas as pessoas olhavam-na de alto a baixo como se ela não regulasse bem da cabeça e fechavam-lhe a porta na cara. Algumas até lhe acicatavam os cães. Realmente o seu aspeto não era muito agradável. A saia castanha de casimira até ao tornozelo estava bastante amassada da longa viagem de comboio, a blusa de pano-cru, com uma gola redonda, em cuja orla a avó fizera um enfeite, estava enxovalhada, as tamancas de madeira e couro e a cesta de vime escuro, onde transportava algumas peças de roupa, completavam a sua indumentária.
Faminta e cansada, sentou-se num banco de um jardim sem saber o que fazer ou para onde ir.
Pouco depois, uma mulher de meia-idade sentou-se a seu lado no banco e meteu conversa com ela. Perguntou-lhe o nome, a idade, se estava sozinha em Lisboa, se não tinha família.
Desorientada e carente, Rosa contou de onde viera, falou da morte da avó, única parente que tivera até aí, do seu desejo de arranjar trabalho, afinal a cidade era tão grande, tinha tanta casa, mal haveria de ser, que ninguém precisasse de uma criada. E ela sabia fazer tudo menos comida, que nunca cozinhara e só sabia fazer chá.
Depois de a ouvir, a mulher disse que tinha trabalho para ela. Era só acompanhá-la até à sua casa.
Rosa sentiu que lhe nascia uma alma nova, quase teve vontade de abraçar a mulher.
Quando lá chegaram, esta levou-a para um quarto como Rosa nunca tinha visto. Era espaçoso, tinha uma grande cama de casal, coberta por uma colcha adamascada em tons de vinho, reposteiros do mesmo tecido, duas mesas-de-cabeceiras e um armário com as portas em espelho de alto-a-baixo. Ao lado uma porta. A mulher abriu a porta e Rosa viu um quarto de banho parecido com aquele que tinha visto na casa grande lá da aldeia. A mulher disse-lhe para se lavar e vestir as roupas que estavam no armário. Deviam ser mais ou menos do seu tamanho.
- As tuas não servem. Não se usam na cidade nem fazem jus à tua beleza. Daqui por meia hora, venho buscar-te para o jantar.



Continua

Nota:  Parece que esta história tem escandalizado alguns leitores. Pois, ela não é uma história delicodoce  como algumas que escrevo e tanto vos agradam. É uma história de vida, de uma mulher do povo, entre os anos trinta e setenta do século passado. E antes que me perguntem, se a história é verídica, digo-vos que não, mas que há nela muita veracidade. As pessoas da minha geração sabem de muitas, Rosas, Marias, Joaquinas, etc que existiram neste país. É também um pouco da história deste país, noutros tempos, que eram bem mais difíceis do que os actuais.



20 comentários:

✿ chica disse...

Eu estou relendo e adorando.. Tenho inclusive todos capítulos que me mandaste na época... bjs, chica

Roaquim Rosa disse...

Bom dia
está cada vez mais emocionante e com certeza esta rosa vai ter um final feliz como merece !!!!!!
JAFR

Isa Sá disse...

A passar por cá para continuar a acompanhar a história.

Isabel Sá
Brilhos da Moda

Filhos do Desespero disse...

Escandalizado?

Porquê?

As pessoas não sabem que existe uma realidade lá fora?

:)

Tintinaine disse...

Eu conheci algumas Rosas, no Jardim do Campo Grande, no tempo da minha recruta na Marinha, e bem gostava que elas me passassem cartão, mas nunca fui muito afortunado, nem tive tempo para isso, a guerra levou-me para Africa, ainda com 1 anos de idade.

Tintinaine disse...

Falhou-me a tecla do 8, pois queria dizer 18 anos!!!

António Querido disse...

Sempre houve e haverá Rosas em qualquer canto do nosso jardim, de todas as cores, umas bem cheirosas, outras nem por isso, umas vão parar a grandes salas, outras a casebres mais humildes, a vida é assim nem todas têm a mesma sorte!
O meu abraço.

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Estou a gostar e não vejo onde pode escandalizar.
Um abraço e boa semana.

Andarilhar
Dedais de Francisco e Idalisa
O prazer dos livros

Anete disse...

Olá, Elvira. Estou gostando muito, a vida tem reveses assim, como os que Rosa tem passado. Vejo que agora vêm novidades outras, com lutas diferentes. Rosa é uma jovem forte no seu interior e superará as atrocidades que carrega "na mala"...

Bjs... Boa 3a feira...

Os olhares da Gracinha! disse...

Uma história de vidas difíceis!!!
Este capítulo lembra alguém que tão bem conheci!
Bj

Sandra disse...

Algumas vidas são complicadas!mas por vezes também têm finais felizes!espero que seja o caso desta sua história!

Edumanes disse...

A Rosa, na cidade, desesperada,
a muitas portas ela bateu
todas se lhe fecharam na cara
já li, sei o que a seguir aconteceu!

Tenha uma boa tarde amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Priscila Ponto Cruz disse...

Olá, Elvira! Vim ler mais um pedacinho da sua história!
Beijocas,
♥Priscila♥

Gaja Maria disse...

uma história de vida Elvira, como tantas que conhecemos e que de cor de rosa tem pouco. Estou a gostar

redonda disse...

Não sei não, mas não me parece que esta senhora seja uma boa senhora...parece-me que a Rosa continua com muita pouca sorte...
um beijinho

Majo Dutra Rosado disse...

Onde terá ido parar a pobre Rosa?!...
Abraço.
~~~

Ailime disse...

A história embora ficção retrata bem o sofrimento de muitas mulheres de então, que para lavar a honra tinham que se deslocar das suas terras para outras e recomeçar nova vida.
Estou a adorar.
Beijinhos,
Ailime

Zilani Célia disse...

OI ELVIRA!
ESTOU LENDO NOVAMENTE E ACHANDO DEMAIS.
ABRÇS
http://zilanicelia.blogspot.com.br/

Berço do Mundo disse...

A vida raramente é delicodoce, portanto nem todas as histórias têm de o ser. E suspeito que os sarilhos da Rosa não se ficam por aqui...

lua singular disse...

Escandalizar?
Elvira essa história vai ser a mais linda que já escreveu, pois já começa com caridade...
Adorei
Beijos
Lua Singular