7.7.17

ROSA - PARTE VIII


Esta foto, tirada por mim, retrata a antiga Caldeira do Alemão depois da intervenção da POLIS. Claro que a única coisa que a liga à antiga, a que se refere o conto, é ser no mesmo sítio. De resto na altura não existiam por ali prédios nenhuns. Existia sim uma fábrica de cortiça, um pouco mais acima onde hoje é o parque da cidade. Pertencia a um alemão de nome Hermann Zunn Hingste, que faliu pouco depois do termino da Segunda Guerra Mundial.Tudo o resto era uma quinta improdutiva.

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                                             VIII

Antes de chegarem ao seu destino, passaram por uma espécie de pequena lagoa que, contrariamente ao rio, se apresentava cheia de água. Numa ponta entre a lagoa e o rio, uma pequena ponte de madeira e, sob ela, um grande portão de zinco, que servia de comporta. Apesar da escuridão noturna, ela parou:
- É a caldeira do Alemão, pertence àquela casa grande ali em cima, que é uma fábrica de cortiça. É ali que eu trabalho. Vem, já falta pouco.
Andaram mais um bocado e foram ter a um sítio cercado por arame farpado com um portão grande no qual o homem bateu.
Pouco depois, uma mulher abriu o portão. Era Amália, a irmã de João, a porteira daquele lugar, que ela soube depois, era a Seca do Bacalhau da Azinheira, de que falavam na aldeia, algumas pessoas que todos os anos eram engajadas para a safra.
Amália tratou-a com naturalidade e até talvez um pouco de carinho. Rosa pensou que ela não devia saber onde o irmão a tinha ido buscar. Estava enganada.
João era o mais novo de seis irmãos. Não chegou a conhecer o pai, que morrera na batalha de La Lys na França, na primeira grande guerra. Devia sentir-se orgulhoso, já que toda a gente lhe dizia que o pai fora um herói, mas não era assim que ele sentia. O que sentia era uma grande mágoa de não o ter conhecido e uma grande revolta contra as guerras que deixam sozinhas mulheres cheias de filhos para criar. Pouco depois do início da segunda grande guerra, João foi para a tropa. Portugal não entrou diretamente na guerra mas, através dos Açores e da base Americana lá implantada, pode dizer-se que de certa maneira lá esteve. João foi destacado para os Açores, para prestar serviço nessa base aérea. Quando embarcou, o medo de que a base fosse atacada pelas forças inimigas era real, tanto entre os portugueses como entre os americanos. O grupo de soldados foi a Fátima, despedir-se da Virgem e pedir a sua proteção.
Então, lá perante a Virgem, João fez uma promessa que para muitos podia ser estranha, mas que foi o que lhe ocorreu no momento. Prometeu, que se voltasse são e salvo, tiraria uma mulher “da vida” e casaria com ela. Toda a família sabia da promessa e, naquele tempo, uma promessa à Virgem, era uma coisa sagrada que se cumpria sem contestação.
 Depois de sair da tropa, João procurou trabalho e quando o teve começou a pensar que tinha que cumprir a promessa. Naquele tempo, os bordéis eram proibidos por lei mas, em Lisboa, havia alguns que por qualquer razão, que ele não entendia, as autoridades fingiam desconhecer.
Aos fins-de-semana, João começou a percorrê-los. Quando encontrou Rosa, já tinha visitado dois, mas ninguém lhe agradou. As mulheres, que encontrou ou eram já demasiado velhas, para a mulher que ele queria para mãe dos seus filhos, ou estavam por demais ligadas àquela vida e não se habituariam a uma vida diferente. Por isso, quando viu Rosa, com o seu ar de menina, provinciano e assustado, sentiu que tinha encontrado o que procurava.
Quando foi buscar o dinheiro exigido pela dona do bordel, João falou com a irmã, que lhe disse que podia levar a moça lá para casa até casarem.
E agora, ali estava ela, numa casa estranha, pobre de móveis, mas rica de vida, a julgar pelos dois catraios que andavam à roda dela como cão à volta do dono.
Amália destinou-lhe a cama de um dos filhos, os rapazes dormiriam juntos, não havia problema. Depois, não seria por muito tempo.



17 comentários:

Edumanes disse...

Para o bem da Rosa, João, homem honesto. Prometeu e cumpriu. Não o teria feito se fosse político!

Tenha uma boa tarde amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Rui disse...

Não há mal que sempre dure e a Rosa, parece ter tido a "sorte" pelo seu lado !
Relato perfeitamente de acordo com a época e a estória promete !
Esperemos que o João faça jus à sua promessa, mesmo daqui em diante !
Também, não se vêem razões para que não faça !
É que a estória ainda vai muito no início e ainda haverá muito que contar. Agora, o quê, é que não sei.
Palpita-me que a Rosa irá arranjar emprego na "seca do bacalhau", ali perto de casa. (?)
Estou a gostar, Elvira ! :)

Silenciosamente ouvindo... disse...


Ainda bem que o rumo da história é mais positivo.

Desejo que se encontre bem.

Bjs.

Irene Alves

Majo Dutra Rosado disse...

Muito bem engendrado, Elvira.
Abraço
~~~

✿ chica disse...

Relendo quando dá! Muito bom! bjs praianos,chica

Gaja Maria disse...

Aparentemente a sorte dela vai mudar :)

AvoGi disse...

Não sabia que antigamente os homens iam usar mulheres ao bordel pRa casar
Kis :=)

Manu disse...

Gostei deste desfecho. Ainda bem que há quem ainda cumpra promessas.
Sorte da Rosa!
Gostei da tua foto.

Beijos Elvira

redonda disse...

Gostei do João, agora vamos lá a ver se eles se apaixonam mesmo um pelo outro, se a Rosa começa a gostar de verdade do João

um beijinho e boa noite

Tintinaine disse...

Já estou a ver a Rosa a lavar bacalhau na seca da Azinheira!
É trabalho duro, mas honesto.

Odete Ferreira disse...

Que grande história se adivinha!!!
Muito curiosa, esta promessa! Está explicada a atitude do rapaz!
Bjinho

Pedro Coimbra disse...

Uma promessa, afinal era uma promessa.
Bfds

Roaquim Rosa disse...

Bom dia
o que realmente estava a surpreender era o pedido de casamento com alguém que não se conhece de lado algum. Agora que estamos esclarecidos vamos esperar ansiosamente o desenrolar desta linda Rosa.
JAFR

Os olhares da Gracinha! disse...

Parece que nem tudo é mau em sua vida! Bj

Ailime disse...

Bia tarde Elvira,
Estou a gostar cada vez mais do enredo.
Beijinhos e bom fim de semana.
Ailime

Berço do Mundo disse...

Que promessa tão peculiar!

FILOSOFANDO NA VIDA Profª Lourdes Duarte disse...

Uma história linda! Ainda bem que Rosa encontrou uma pessoa boa apesar de tudo. Parabéns amiga, escreves muito bem e deixa os seus leitores com vontade de prosseguir.
Tenha uma noite de paz e um amanhecer feliz. Abraços