8.7.17

ROSA - PARTE X


Igreja de Santa Cruz no Barreiro. A estátua em frente é do Padre Abílio. Homenagem do povo a quem ele amou, e protegeu, construindo casas  e dando comida e roupas aos mais necessitados.
Meus pais casaram nesta mesma igreja em 1946 ano em que nesta história se casou a Rosa. Na foto do casamento deles me inspirei para descrever o vestido de noiva da Rosa. Podem ver a foto no fim do post. 
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                                                  X 


No Domingo, depois da missa, falaram com o padre para marcar o casamento. Naquela época, no Barreiro, era o Padre Abílio que estava na Igreja de Sta. Cruz onde eles acabaram por casar.
Este, depois de ter ouvido a confissão dos dois, fez questão de tratar de tudo rapidamente e sem qualquer custo. Casaram três semanas depois, o tempo necessário para os proclamas na terra dos noivos.
João tinha alugado uma casita num pátio perto da entrada da Seca. Era pequena, apenas um quarto e uma cozinha, uma pequena arrecadação e um galinheiro nas traseiras. Não tinha luz elétrica, nem água canalizada. Mas, no centro do pátio, havia um poço com uma espécie de tripé por cima, com uma roldana, onde passava uma corda que tinha numa das pontas um balde. Era desse modo que eles se abasteciam de água. Não tinha casa de banho. As necessidades faziam numa espécie de pote em argila, que era despejada todas as manhãs na “pipa”. A “pipa” era uma camioneta cisterna, propriedade da Câmara, que todas as manhãs percorria os pátios para recolher os detritos. Num canto do pátio, havia um pequeno cubículo onde se improvisara um duche comunitário, já que servia para todos os moradores do mesmo, que era composto por oito casas. O duche era a ponta de um regador, presa num tubo que saia de um bidão que alguém instalara lá em cima no telhado. Estava sempre cheio de água. Cada vez que alguém tomava banho, quando acabava, ia ao poço buscar água para voltar a encher o bidão. De Verão, o bidão apanhava sol todo o dia e o banho era quente. De Inverno, a água gelava e os moradores tomavam banho num alguidar grande de zinco, com água aquecida nos fogões a lenha ou petróleo que cada um tinha em casa. Naquelas três semanas, até ao casamento, compraram uma cama, uma mesa e dois bancos. A madrinha de casamento, deu-lhes dois lençóis e o padrinho, um fogão a petróleo para fazer a comida. A cunhada deu-lhe meia dúzia de pratos e dos futuros vizinhos recebeu um tacho, uma panela, uma sertã, um candeeiro a petróleo e uma manta de trapos.
 Rosa fora trabalhar para a Seca do Bacalhau e lá encontrou gente da sua aldeia e de certa maneira sentiu-se mais segura. Era gente que trabalhava muito, ganhava pouco e ainda tinha que poupar para a viagem de regresso à aldeia, quando a safra acabava, e também para os meses que ficavam lá na aldeia, sem saber onde arranjar dinheiro para comer. Mesmo assim, juntaram-se e compraram o vestido de noiva da Rosa. Era uma saia azul e um casaquinho da mesma cor e uma blusa branca. A cunhada deu-lhe os sapatos. Não eram novos, tinha sido a madrinha dela que lhos dera no casamento. Mas como estavam apertados só os usara nesse dia. Eram pretos, com um vivo largo branco a toda a volta.
Quando no dia do casamento, se viu ao espelho, Rosa achou-se uma rainha. E lá foi para a igreja, na carroça do ti’ Abel com o futuro marido, porque essa história do noivo não ver a noiva antes do casamento, não era para gente pobre. Pelo menos nessa época.

Continua






Foto de casamento de meus pais. Quem me segue há muito tempo conhece-os bem. A Gravelina e o Manel da Lenha, cuja história já aqui contei.




16 comentários:

Ana Martins disse...

Maria Elvira, boa noite:
não tenho andado por aqui, mas gostei muito da Rosa - parte X.
Beijinho.

Odete Ferreira disse...

A acompanhar, com algum sentimento de tristeza pela vida daquela época.
Bjinho

Roaquim Rosa disse...

Bom dia
que bela descrição dos tempos de então .
um bom fim de semana.
JAFR

Isa Sá disse...

A passar por cá para acompanhar a história.

Isabel Sá
Brilhos da Moda

Tintinaine disse...

Até ao início da Guerra do Ultramar Portugal era um verdadeiro atraso de vida. A partir dessa data começou a mudar rapidamente, primeiro por causa da emigração que começou também nessa altura e depois por causa da guerra e da grande movimentação de militares.
Para nós, os mais velhos, que nascemos antes disso e acompanhámos a mudança a par e passo é mais fácil perceber esta pobreza franciscana aqui relatada.

António Querido disse...

Isso era tempo de miséria, agora fazem bairros sociais, dão-lhes um T2 com luz, água canalizada, gás Natural, e televisão, cobram-lhes 20€ mensais e estão sempre a refilar com os políticos e autarcas!
São os tempos do século XXI.

Com o meu abraço.

Ailime disse...

Boa tarde Elvira,
Continuo a acompanhar com bastante interesse o desenrolar da história.
Está magnífica.
Beijinhos e bom fim de semana.
Ailime

Edumanes disse...

Era assim nesse tempo,
do que li não duvido
por também o ter vivido
disso bem eu me lembro
deste capítulo já ter lido!

Mas, porque gosto,
continuo a acompanhar
todos os dias do poço
também eu para o alguidar
tirava água para lavar o rosto!

Tenha um bom fim de semana amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

aluap Al disse...

Boa noite Elvira, eu gostei imenso da história do Manel da Lenha, mas "Rosa" não fica atrás. Estou a reler porque esta história é tal qual os filmes antigos com o Vasco Santana, António Silva e outros do seu tempo, que se vêem hoje e voltam-se a ver daqui a algum tempo.
Mas neste post inseriu 2 fotos que merecem ser comentadas, pois padres que protegem o povo merecem todas as homenagens e acredito que todos aqueles que privaram com o Pe. Abílio terão infindáveis narrativas e exemplos de bondade e dedicação ao próximo para contar e recontar. Digo isto porque até estou a tentar escrever algo sobre um padre natural de S. Pedro do Sul (Ranhadinhos) que marcou de forma inapagável a vida eclesiástica, social e cultural da minha terra nos anos 40.
Quanto aos vestidos de noiva há quem diga que tudo tem o seu tempo e moda, mas eu acrescentaria...e o estrato social e modo de viver.
Na minha terra, nos anos 70, quando os meus pais casaram, ainda havia noivas a vestirem saia cintura alta rodada com uma blusa e véu no cabelo. Parece que o uso do véu simbolizava a pureza da noiva.
Bom fim de semana.

Isa Sá disse...

Bom domingo.

Os olhares da Gracinha! disse...

Linda a foto dos pais!
Uma nova etapa na vida da Rosa! Bj

redonda disse...

Gostei muito da fotografia dos pais - gosto de ver fotografias antigas e imaginar como seriam aqueles que vemos nas fotografias, como seriam nessa altura, quando os conheci mais velhos, como seria a sua vida - pode ser que um dia a história deles volte a surgir por aqui de novo.

E como estará o romance da Rosa? Ainda bem que ela estava feliz no dia do seu casamento e acho lindo quando pessoas que têm tão pouco dão do pouco que têm, como está a acontecer aqui

um beijinho

Cantinho da Gaiata disse...

Adorei a foto dos pais, fico sempre imaginando como eram as coisas noutros tempos.
Quanto à história, estou a gostar, mas naquele tempo era mesmo vida de pobres, até dá pena da Rosa, nas pode ser que a amiga Elvira dê a volta aí final da história.
Beijinho e uma boa semana.

Berço do Mundo disse...

Hahaha, gente pobre tende a simplificar a vida!

Rui disse...

Curioso que li "os proclamas" para o casamento. Na minha terra, Ermesinde, chamavam-se "os Banhos", que teriam que estar expostos nas terras dos noivos durante 9 dias, mas incluindo 2 domingos. :)
Até agora, tudo normal.

Socorro Melo disse...

Uma história emocionante, Elvira!